Orgasmo

“A inteligência é “igualzinho” ao pênis, é isso mesmo, pênis. Pênis é um órgão excretor, flácido, ridículo, depressivo, ta sempre olhando pro chão, mas se for provocado ele sofre transformações hidráulicas extraordinárias, assume a forma de um foguete intercontinental, explode, é capaz de dar vida, capaz de dar prazer. A inteligência é a mesma coisa, dizem: “o aluno não é inteligente”, é que a professor e professora não fez, foi o trabalho de excitar a inteligência”de: Rubem Alves.
Excitar a inteligência, fazer com que alunos tenham orgasmos com o conhecimento. Usar a própria palavra “orgasmo” em um texto sobre educação, pode causar estranhamento, isso porque neste tempo do "politicamente correto", pensa-se a palavra como se ela fosse um bloco de concreto e não um corpo semântico no qual podemos dissecar e aprender. Levar informação é o cardápio primeiro do aprender, mas infelizmente pouco a pouco informação foi transformada no começo, meio e fim da educação.
A metáfora do Rubem Alves sobre pênis e excitação da inteligência é perfeita, porque quando não se estimula a inteligência o que temos são pessoas eternamente prostradas sobre suas dores, reclamantes das suas perdas, mas pouco dadas ao erguer armas e partir para luta.
Dizem que estamos vivendo a época da informação, isso é bom, mas também é trágico, bom seria se estivéssemos vivendo a época do conhecimento, a capacidade de abstrair informações e delas gerar conhecimento.
Ansiedade nos fazem refém da eternada novidade, bem não aprendemos a lidar com o que temos ou somos, já estamos ansiosos para mudar de fase como em um jogo, tão rápido amamos e desamamos, tão rápido vivemos nossos lutos, tão breve é a saudade, tão descartável nossas alegrias. O tempo da informação é também o tempo da rasa emoção, como em um bordel, goza-se sem beijar, sem sentir o sabor do outro, deixa-se na cama não sementes de amor, mas o suor animal de quem apenas ejaculou a ansiedade de sua carência.
Sem tempo para aprender a sensibilidade do outro, as drogas estimulantes substituem o cheiro, toque, desejo, atenção, antes tinha-se  o amor, o desejo, a tara, agora apenas o comer sem saber o que se come, o lambuzar corpos sem inteligência, masturbação a dois na solidão santificada pela nossa incapacidade de conhecer nos permitir ao amor.
Sem paciência para apreciar o sabor da comida, a aparência do prato é o que importa, comemos pelos olhos e pouco sentimos prazer real, na sociedade inimiga da lentidão, engolir sem ao menos saber se é quente ou frio é regra, mesmo que depois padeçamos de úlceras e gastrite. Sentir o prazer da companhia de alguém é quase um pecado, vive-se "amor"  motel, entra-se já sabendo o tempo da permanência, ler a Montanha Mágica agora é coisa para desocupados, triste de quem diz: “meu amor, meu bem”, tratar o outro bem é nestes tempos rápidos: cafonice, brega, bom mesmo é trocar palavras por algo concreto, um carro já é um bom começo, o amor é démodé, porque só amamos o que temos conhecimento, mas para se relacionar informação basta.
Se um homem diz que gosta de flores, ou de ir ao jardim ou contemplar obrar de arte geralmente ouve em resposta: não tenho tempo para isso, isso é para quem não tem o que fazer, mas em que se “gasta” tanto tempo? Na pressa.
Em Alice no País das Maravilhas, Alice encontra um coelhinho que vive apressado com um relógio nas mãos, mas o triste é que ele não vai para lugar algum, sua pressa é sem sentido, vive preso ao relógio que sem dizer nada é seu senhor.
Alice no País das Maravilhas foi escrito por Lewis Carrol, publicado em 1865, Alice ao cair no buraco encontra um mundo fantástico, mas esse mundo é o nosso próprio mundo, a menina projeta nele sua imaginação, seu encantamento, faz de um simples buraco uma aventura inesquecível.
Estamos passando batidos pela vida, compramos carros caros e depois amargamos horas das nossas vidas em engarrafamento, esquecemos das maravilhas do mundo e nos aprisionamos em nossas casas cada vez mais tecnológicas e sem vida.
Exercitar a inteligência, não permitir que nossas emoções sejam atrofiadas, planta e esperar o tempo bom da colheita e não envenenar a terra e depois dela sorve o veneno. Educar é muito além de aplicar conteúdo, educar é excitar a inteligência, saber do prazer que é ter um orgasmo de conhecimento quando não morremos no oceano de toscas informações, quando não conectadas com nossos desejos, não são e nada serão.




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