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Vidas Secas

Publicado em 1938, Vidas Secas é o quarto romance de Graciliano Ramos. Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia são os personagens centrais da trama, estão também na lista de personagens mais famosos da literatura brasileira. Mas por que vidas secas e não terra seca?  Porque o romance nega a ideia simplória do determinismo que queria fazer crer que toda tragédia da vida do sertanejo era por causa da seca, infelizmente essa ideia estúpida do determinismo ainda tem adeptos no país, basta uma busca rápida pela internet para encontrarmos pessoas do sul acreditando que somos miseráveis e sedentos porque somos nordestinos, ou até mesmo no nordeste, os nordestinos do litoral olham com certo desprezo para os do semiárido.
Vidas secas sem pretensão filosófica, sem retórica enfadonha e em poucas páginas joga ao chão a ideia de quer a vida de quem nasce no sertão é miserável porque ele é seco, pelo contrário, a seca quase não aparece no drama, o que aparece é Estado truculento na figura da policia, ausência do mesmo Estado no analfabetismo dos personagens.
Graciliano Ramos não culpou a natureza pela fome, culpou o governo, não era a natureza que era seca, era a vida, se não fizesse assim seria o mesmo que culpar o escravo por ser escravo, puro determinismo. Claro, muitos escritores menores insistem em jogar na conta da natureza os problemas com a fome e miséria, esses nunca leram Josué de Castro, quanto mais Graciliano Ramos, mas escritores menores tem algo de bom, servem apenas para alimento de traças, nunca vão ser lidos e estudados décadas após décadas.
Muitas coisas mudaram desde que Vidas Secas foi escrita, querer analisar o Brasil de hoje com os olhos de quase cem anos passados é estupidez ou falta de conhecimento histórico.  Fome é miséria não são privilégio de região alguma, mas a condição de vida melhorou bastante, o analfabetismo definiu sensivelmente, a agricultura familiar desde a década de 1980 vem sendo incentivada, a UNEB atua em quase todo semiárido da Bahia, os índices migratório vem caindo ano após anos, há quase 20 anos, a região nordeste é a que mais cresce no país.
Falta muita coisa ainda, mas há um problema grave a ser superado: a percepção como nos enxergamos, temos sempre inclinação a analisar tudo pelos olhos do pessimismo e decadência, com se vício na miséria fosse maior que qualquer conquista. Isso nos impede de avançarmos mais e mais, pior fragiliza nossas conquistas, nos torna eternos miseráveis diante nosso próprio povo.
Vidas Secas é lido e estudado até os dias de hoje por um detalhe: é literatura de espetacular qualidade, um livro escrito não para retratar a realidade como jornal, mas tem em si todas qualidades de um romance que faz seu leitor refletir, se emocionar e buscar criar a partir dele suas múltiplas leituras.
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