Pular para o conteúdo principal

A soma das excluídos

Um romance histórico não isenta o autor de ser fiel ao período da história que se propõe recriar na ficção, por outro lado, não se pode cobrar do romancista a exatidão de um estudo histórico, romance é a seara da ficção, através dos romances históricos fatos importantes do passado são recriados, o leitor é colocado dentro da ação do tempo ali revivido. A união entre a história e ficção quando celebrada por um escritor determinado a narrar uma época, mas sem abrir mão da fantasia e prazer do texto ficcional, quase sempre produz grandes enredos, nos apresenta antigos personagens de uma maneira mais próximo do sentir humano, nem demonizados ou santificados como às vezes acontece pelo próprio estudo histórico, embora recriados pela imaginação do autor, traça um livre diálogo conosco, ele do seu passado e nós do nosso inquieto presente às vezes tão antigo.
Em “Sombras da Revolta”, romance histórico da escritora Custódia Wolney, a autora mergulha no século XIX, mais precisamente no estado do Maranhão, para nos contar duas histórias que se cruzam entre a dor, amor e um país em busca da sua própria identidade, por vezes, mesmo nos dias de hoje, tão dispersa e fragmentada identidade.
Ao narrar a história improvável de um amor entre “Mulato”, que era “considerado filho de escrava, não tinha sangue bom o suficiente para cortejar as moças da sociedade” e de Arlete, uma prostituta famosa por sua beleza, a autora nos mostra um Brasil tacanho, sangrento, desigual e aponta diretamente para raízes alguns dos nossos maiores males: falta de identidade com nosso próprio país, preconceito racial, disputa política pelo poder em detrimento da dor sofrimento do povo.
A história de “Mulato” e Arlete se passa durante a Balaiada, revolta ocorrida no Maranhão em 1838, liderada por escravos, artesão e homens livres. A Balaiada teve três grandes lideres: Raimundo Gomes, Manoel dos Anjos Ferreira, conhecido como Balaio que acabou dando nome a revolta e Cosme Bento de Chagas, certamente seu maior líder, chegou a comandar aproximadamente, três mil escravos fugidos, saiba mais sobre ele aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CvVh91VArzQ
Interessante notar que a história romanceada pela Custódia Wolney, tem como base a desobediência civil ao Estado. O governo dividido em facções governa para si mesmo, apenas a elite política e seus apadrinhados são assistidos por um Estado tomado por parasitas, isso leva a levantes populares, não muito diferente desse Brasil de hoje em que manifestações pacificas são abafadas por outras mais radicais, no centro de tudo o mesmo governo distante, fechado em si mesmo e que governa por “terapias” populistas,
Se antes tínhamos os balaios, hoje temos (guardadas devidas proporções) os Black Blocs, no entanto esse não tem uma agenda clara, diferente dos balaios, mas ao ler o romance da Custódia Wolney, quase que página a página é possível trazermos para os dais de hoje os dilemas e questões sociais daquele Brasil tão distante e tão perto de nós.
A história de amor entre “Mulato” e Arlete não tem como rivais um homem ou outra mulher, os rivais do amor dos dois são a sociedade e toda contradição política da época, o direito e a liberdade de amar é negado tão somente por convenções sociais e políticas, “Mulato” é estudado, fala outras línguas, estudou na Europa, ama a poesia, mas é filho de uma escrava, tem aparência física que destoa do coloquialismo aceito como “belo”, isso anula todos seus predicados, assim como no Brasil de hoje, no de ontem a essência não precede a aparência, nenhuma mulher se interessa por” Mulato”, ao ir ao bordel se encanta por Arlete, mas mesmo no bordel, ele pouco consegue se realizar, Arlete é a preferida dos poderosos. Todos os ingredientes para uma apaixonante história foram reunidos por Custódia Wolney neste romance histórico que de alguma maneira conta um pouco da vida de todos nós.
A Sombra da Revolta, Woney, Custódia – São Paulo: Livro Pronto, 1ªEd 2010


Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…