“Gigante Gentil”



“Quando comecei a trabalhar com internet, me assustei com o modo como as pessoas se referiam a mim. Me chamavam de zumbi, morto-vivo, walking dead.Diziam que, se eu levantasse os braços, Deus me puxava. Era uma agressividade cruel. Fiquei indignado e compus Gigante Gentil como resposta” * (Erasmo Carlos). Resposta poética e racional do Erasmo, unir a paixão pela arte é a razão de quem fez da própria vida um manifesto pela arte e para própria arte, reagir com gentileza ainda é o melhor caminho contra corações de chumbo e caráter de papel.
A impressão que tenho é que estamos em uma eterna disputa medieval, armados e supostamente protegidos com nossas armaduras, corações armados sempre esperam o pior, mas o pior mesmo é pertencer à única espécie que sente prazer em fazer o mal, única espécie que se divide em níveis sociais, única espécie que ganha a vida sobre a ruínas dos outros, única espécie que se apaga ao que o tempo, como escreveu Marx, vai dissolver.
Eu sou o não outro que deveria ser parte de mim, já que somos todos parte do gênero humano, mas eu e o meu não outro que é o ser “humano” ao meu lado, nos separamos da nossa delicadeza humana, agora é como se ele fosse um jacaré e eu um gambá, não nos sentimos bem um na presença do outro, ele me olha assustado e eu com medo, ligo o som do meu celular fecho os olhos e pela voz de Maria Callás me ausento de tudo isso, minha gentileza é ser invisível.
Erasmo Carlos batizou seu novo disco de “Gigante Gentil”, nos diz com isso que é preciso menos dedo em riste e mais delicadeza, saber do bem que é ser bom, ser bom algo que nossos avôs eram, ser gentil dizer que bom que somos pessoas e pessoas podem também amar e que triste se tudo ficar na masturbação de viver, começarmos a nos amar em silêncio, ter mais prazer em trepar com nossas mãos que com outro corpo, ri da nossa falta de graça e esquecer o caminho que nos abre os braços para felicidade.
Sermos gentis, colher das sobras os fragmentos de luz, não morrer de medo quando alguém diz: bom dia, afinal somos ainda, uma única espécie, por enquanto somos, talvez daqui há alguns anos sejamos modificados geneticamente, mas enquanto isso não acontece, um pouco de gentileza não faz mal a ninguém.
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* Fonte: Correio Brasiliense, 12 de maio de 2014/ Divisão e arte

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