“Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!”*


Esses dias tenho pensado muito em um verso de Caetano Veloso: “ Quem vem de outro sonho feliz de cidade /aprende a depressa/ chamar-te de realidade”. Os versos da canção “Sampa” nos apresenta o olhar de bestialidade, encantamento, angústia e perplexidade de um nordestino ao chegar a São Paulo, sua angústia não é pela cidade em si, todas capitais do nordeste são metrópoles e metrópoles são em menor ou maior grau filhas da mesma máquina moderna e urbanista do século passado, mas a angústia maior do “Eu” lírico da canção, que também compartilho em alguns momentos, é de se sentir estrangeiro em seu próprio país, como se de alguma maneira aquele lugar chamado Brasil fosse o não nosso lugar e que  a frase na carteira de identidade: “válida em todo território nacional”, neste outro Brasil  não tem valor algum, e que a qualquer momento podemos ser deportados para o não país de origem: o nordeste.
A tal cordialidade do “homem” brasileiro não existe na sua totalidade, embora o nordeste do país, juntamente com o norte, tenham nos últimos séculos sido berço de notáveis brasileiro, para os estados mais ou sul, às vezes, esse fato histórico parece não ter sentido algum, por isso para mim os nordestinos notáveis deste país foram pessoas muito além de inteligentes ou criativos, foram especiais, tinha em cada um força incrível de não se deixar cair de joelhos diante a inanição social.
Além dos brasileiros notáveis  nascidos nordeste, há os anônimos, aquela multidão que ajuda a mover esse país nas suas mais diversas engrenagens, esses receberam de Euclides da Cunha uma frase preciosa: “O sertanejo é antes de tudo um forte”, antes de sermos nordestinos, eram no Brasil de Euclides da Cunha, sertanejos, fortes e vibrantes, como hoje ainda somos pelas ruas desse Brasil mestiço, branco, negro, indígena, um único país de um só povo que deveria se alegrar pela diversidade de sotaques e culturas e não fazer disse motivo de segregação.   
Claro que em meio às relações arame-farpado há boas pessoas que entendem o país como uma única nação. Quase todos nordestinos notáveis em algum momento encontram pessoa que deram as mãos, ajudaram a formatar caminhos e foram parceiros de todas as horas, no fim penso que são essas pessoas que contam, as outras deixamos do lado “B” da história , entregues a “ força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como canta Caetano Veloso em outro verso de “Sampa”.
* Verso de Belchior na música “ Conheço meu lugar”

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