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A Casa da Árvore

Na dedicatória do “O Pequeno Príncipe” Antoine de Saint-Exupéry escreve: “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso”. Então seu livro é dedicado a um amigo que se esqueceu de que um dia foi criança, me parece uma das coisas mais triste que possa acontece com alguém é perder as lembranças e ecos de ternura da infância.O Pequeno Príncipe, segundo seu autor, não é para crianças e sim para esses adultos que se perderam dos seus passados, no entanto é complicado restringir para quem uma obra foi escrita ou composta, O Pequeno Príncipe ficou celebre entre crianças e adultos, as crianças tem um gosto todo particular, sempre acontece, por exemplo, de canções cheias de duplo sentido, que não foram escritas para crianças caírem no gosto delas e discos feitos, pensados para elas não receberem atenção alguma.

Foi lançado pela Editora Mondrongo o livro de Poema “A casa da Árvore”, da autoria de Herculano Neto, o livro cheio de referências à infância, traz nas três partes em que é dividido o sabor do passado que bate e escancara as portas do presente e mete o pé na bunda do futuro e o convidando para umas doses no Bar do Nem (reduto boêmio do Herculano Neto), é nostálgico sem perder a conexão com o presente, é melancólico, mas tem saber daquelas paixões que nos cobre o corpo quando a madrugada é fria.

Na contra capa há uma foto do autor quando criança, enquanto a capa traz o desenho de outra criança sentada e abraçada por uma árvore, talvez nos dizendo que é preciso olhar mais de perto para nossa natureza, a essência do que somos e não nos encantarmos em demasia pela superfície em que transformamos nossas vidas.

A Casa da árvore é um livro sobre a infância, mas não é um livro infantil, é um livro em que o autor na sua maturidade, de maneira delicada revive seus caminhos, perdas e conflitos, e a maravilha de não se sentir estranho no seu tempo atual, embora o confronte sem medo. Há algo de introspecção, estranhamento, mas de leveza nos poemas de A Casa da Árvore, bem como certa vez definiu a jornalista Kátia Borges a natureza literária do Herculano Neto: levíssima.

O Brasil se viciou em livros bonitinhos, todos arrumadinhos, se discute mais biografias e suas vidas santificadas pela desonestidade intelectual do que a criação literária, gurus religiosos de araque e debates políticos que parecem chupados de um pesadelo de Freddy Krueger, então no meio dessa nuvem indigesta de palavreado que alguns por pura blasfêmia chamam de literatura, encontramos poetas e seus livros, editoras como a Mondrongo, acredita e edita livros de poesia e o mais interessante aos subirmos nesta árvore poética do Herculano Neto, encontramos ou reencontramos a literatura provocativa, delicada e suave como a infância vivida na Inocência do antigo Bairro do Trapiche de Baixo, lugar das reminiscências infantis do autor, lá no antigo Bairro que a árvore foi plantada e durante anos Herculano Neto foi construindo sua casa, as margens do Rio Subaé, perto e tão distante ao mesmo tempo de Salvador, a beira mar, poemas sobre a infância, mas que faz vibrar agora os corações saudosos de tantas coisas vividas e se emocionar com as sementes daquela velha árvore que nos faz sentir a infância da saudade sem a pieguice de negar o que agora se é. Coloco no plural “nos faz sentir”, porque nesta árvore escrita por Herculano cabem muitas paixões além das suas.

Três atos para a construção de uma Casa na Árvore: 1º ato: Casa de Retalho- Estranhamento, a cidade se desnuda tal qual o corpo na puberdade: “invado a noite da cidade/ ninguém me contesta/ me olha nos olhos/ ou levanta a voz (sou o chefe da casa/ o rei da floresta / meu legado”. Puberdade que se vai com o confronto entre como vemos e de como somos vistos: “na primeira vez/ que fui chamado de senhor/ pensei que não era comigo/pensei em refutar/ em corrigir/ em dizer que era engano/ o senhor se estendeu/ ao porteiro/ao taxista/à mocinha que pergunta as horas na rua/à prostitua que exige o pagamento antecipado/ aos meus filhos/ aos amigos dos meus filhos/ à recepcionista do hotel glória”.

2º ato: La Maison des mirois (A casa dos Espelhos). Poemas latinos, mas não escritos em português, sim em francês, em tradução de Pedro Viana. A decadência das emoções, uma vontade fria de destruição em que o desassossego chama (contraditoriamente) para frente, para ir caminhando, negar o estanque desejo de caos íntimo: “tenho vocação para o abismo/para o abraço/ tenho fixação por detalhe/ por olhares/ sou irremediavelmente insatisfeito / displicentemente franco/ o melhor dos meus amigos/ o melhor amante das minhas tristes/obsessivo / tenho vocação para infelizes”.

O confronto entre os desejos, a ponte que leva a realização do que se quer e o amor como aspas para paixões: “eu amo mas não me arrisco/ tenho um coração aflito/ repleto de malícias/ eu amo um animal arisco/ que tem um coração distinto/ cansado de carícias”

3º e último ato: A Casa da Árvore, a interpretação da infância, o adulto que questiona a si mesmo no tempo em que não se reconhece, a criança que parece puxar pelas mãos esse adulto para que não se perca em amarguras: “a infância foi uma manhã de sol/ há tempos que sou/ noite de rugas e cabelos brancos/a infância passou sem nuvens/quase madrugada”. A sensação de brevidade, de um sabor não sentido em toda sua dimensão, de algo perdido em alguma brincadeira na infância, brincadeira que nunca se completou.

O encanto e desencanto com a cidade casmurra que poderia ter sido e nunca foi, que é hiperbolicamente amada e mal amada, a cidade que é a musa, a fêmea puta de todos os sabores e dissabores, as ruínas da civilização, os escombros do amor profundo, inseparável: “cresci numa cidade/ onde não havia cinemas/ planos sequências se repetiam nas ruas/ nos becos/ projetados nos muros/ cardinales bonitas/ se reservavam no curta-metragem/ da minha infância/ cresci numa cidade/ onde não havia quase nada/apenas histórias para lembrar”.
Com o poeta Jorge Boris e Joana Marendaz no Bar do Ném


O menino, o homem, o poeta inquieto a exemplo de um caracol carrega sua casa nas costas, dentro dessa casa suas lembranças trazem conforto, de longe tudo parece distante, mas de perto o velho amigo mário o conforta:
“já morei em muitas casas/ embora/ em sonhos/ apenas a casa das infâncias me alcance/bem que mário dizia que não importa que a/ tenham demolido/ e a demoliram em um sábado / desses de cartão-postal/ a gente continua morando na velha casa em que nasceu/ já morei em muitas casas embora sonhe apenas com a das infâncias”.
Saiba mais sobre A Casa da Árvore em:


http://herculanoneto.blogspot.com.br/
www.mondrongo.com.br
http://livrosdeedineysantana.blogspot.com.br/

 






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