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Lírios do campo

Foto: Álvaro Ricardo
Olho para dentro de mim e me sinto lindo, olho para trás e tenho orgulho dos caminhos por onde andei, mesmo os que por algum motivo me causaram dor, olho para os lados e me emociono com os que vejo, olho para aquela distante criança brincado na Leste e corro para abraça-la, a vida não termina nunca em dor, somos a soma das inúmeras vidas que juntas criaram esse mundo maravilhoso, de uma minúscula bactéria a ideia poderosa de Deus nós somos a soma de todas vidas.
Olho para mim e sinto alegria com os novos traços do meu rosto, traços de tempo, cada um diz que vivi, cada um guarda um momento da minha vida e das histórias que sou parte, olho para mim e me sinto feliz com os fios de barba branca, envelhecer é a alegria de saber o quanto andamos, não sabemos dos mistérios de estarmos aqui, para alguns o mistério é Deus, eu prefiro apenas viver.
Olho para mim e me sinto tranquilo como senhora que trabalha na limpeza pública e que todos dias dou bom dia e ela nunca responde, mesmo assim me sinto bem, seus olhos tem ternura, embora suas mãos estejam cheias de calo.
Olho para mim e me vejo cada vez mais parecido com minha mãe e um primo distante, com minha mãe além da aparência física há intelectual, com o primo só a física, olho para mim e me tenho ternura, como em uma música de Jorge Portugal e Lazzo: “apesar de tanta dor que nos invade/ somos nós alegria da cidade”.
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Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
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