Nair de Tefé

Nair de Tefé

Em 1907 o então ministro da guerra e futuro presidente do Brasil Hermes da Fonseca proibiu as bandas militares de tocarem o maxixe, gênero musical genuinamente brasileiro e o por isso mesmo não bem vindo nos salões da burguesia, aquele momento embebida de cultura francesa. O motivo da proibição? Além do preconceito com a cultura popular? Hermes convidou o embaixador alemão Franz Von Reichenau para assistir uma apresentação militar, ao término da apresentação o embaixador pediu para a banda militar tocar “Vem cá Mulata” de Arquimedes de Oliveira, a banda tocou, era impossível recusar um pedido de tão ilustre senhor, mas o maxixe ritmo das ruas, da poeira e suor das ruas, boêmio e cheirando a noitadas foi banido do repertório musical dos militares.
26 de outubro de 1914, festa no palácio do Catete, Hermes da Fonseca, agora presidente, casado com Nair de Tefé, recebia a nata da sociedade militar e civil da república, a primeira dama pega o violão e toca o “Corta Jaca”, maxixe de autoria de Chiquinha Gonzaga, composta em 1897, foi um escândalo a primeira dama ficou falada e mal afamada, a sociedade que se fantasiava de francesa se sentiu ofendia. Como primeira dama que além de tocar violão ainda por cima executara uma canção que lembrava o cheiro de suor e bebida dos cabarés da cidade?
Rui Barbosa, ele mesmo em pessoa e língua ferina, que na juventude ao lado de Castro Alves fez parte de campanhas pela abolição, atacou a primeira dama da tribuna do senado, disparou:
“A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o "Corta-jaca" é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!
Nossa primeira Dama, Nair de Tefé foi uma mulher fascinante, fez muitos saraus no palácio do Catete, levou o violão para junto das orquestras, incentivou artistas populares. Naquela noite em que tocou ao violão o “Corta Jacá” estava acompanhada por dois jovens músicos que se tornariam estrelas da nossa música: Jayame Ovalle e Sátiro Bilhar, o primeiro parceiro musical de Villa- Lobos e Manuel Bandeira, o segundo, tido por todos que ouviram tocar como o melhor violonista do seu tempo.
Nair de Tefé, além de primeiríssima dama do país foi: caricaturista, pintora, cantora e atriz, muitos a consideram a primeira mulher no mundo a fazer caricaturas, publicava na revista Fon Fon, participou da Semana de Arte Moderna em 1922. Nair de Tefé morreu em 10-06 -1981, era o dia do seu aniversário, tinha noventa e cinco anos.
Lembrei dessa história quando ontem pela noite fui ao instituto Geográfico Histórico de Brasília com a Renata Madureira, era posse na Academia de Letras e Música da escritora Custódia Wolney, ao término da cerimônia, o Quarteto de Cordas de Brasília tocou o “Corta Jaca”, música que tem uma história belíssima, iniciou uma revolução cultural no país. Quando a primeira dama pegou seu violão e a executou, talvez não soubesse que ali se abria portas para que todo um universo cultural fosse reconhecido, coincidentemente hoje é aniversário de vida e morte da Nair de Tefé, coincidência... Feliz aniversário primeira dama e obrigado, porque todos como eu hoje podem corta jacas em paz.
Fonte de pesquisa: O Santo Sujo: A vida de Jayme Ovalle: Humberto Werneck
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