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O amor fora de moda

Amo tudo que ficou fora de moda, amo o próprio amor porque o amor não tá na moda, a moda é o linchamento de pessoas amarradas em postes, os embargos infringentes para notáveis canalhas e pena de morte para ladrões de galinha, definitivamente não tenho emoções para coisas da moda, minha alma é tão démodé quanto um casal namorando na praça, aliás, namorar na praça é algo totalmente fora de moda tanto quanto o respeito à Constituição, um livrinho que deveria ser: o caminho, a verdade e a vida para os brasileiros, mas que ninguém lembra que existe.
Sou do tipo que fica de pé em sinal de respeito quando passa um enterro, o respeito aos vivos é algo totalmente fora de moda, quanto mais aos mortos. Adoro dizer: bom dia, boas tarde e boa noite. Três coisas fora de moda, vá a uma repartição pública e diga: “bom dia”, você vai ter a impressão de tá falando com um jacaré de dois pés, pensando bem, os jacarés devem ser mais dóceis, gentileza é algo totalmente fora de moda.
A moda é um nariz empinado para não respiramos nossas indecências cotidianas. Amo as gentilezas das almas delicadas, ser gentil e ter uma alma são coisas fora de moda, a moda é ser sacana, o disse me disse, outro dia alguém me disse que alguém tinha dito que estava “virado na porra com a minha cara” porque eu tinha dito algo sobre ela”. Faça-me o favor, quem acredita, seja no que for, porque ouviu alguém que supostamente disse algo para outra pessoa, não merece gentileza, mas compaixão, no entanto compaixão é algo também fora de moda, a moda é sentir pena.
A justiça, essa mulher charmosa, culta, com ares de deusa grega e que fala com sotaque latino, foi sequestrada por gente totalmente sem gentileza, mas competentes na arte do crime e o crime é à moda do Brasil. Amo a paciência, há muito fora de moda, a moda é tudo para ontem, assim cavamos nossa sepultura no estresse, no gozo seco e sem amor das relações natimortas, planejamento em longo prazo é algo fora de moda, a moda é cotas: aprova alunos analfabetos, diploma gente ignorante, afinal temos nossa grandessíssima reparação, mas sem propor uma vírgula ao menos para reformular o ensino. Pensar, planejar, incentivar a inteligência? Fora de moda. Vamos repensando nossas mediocridades!
Amo ficar em casa sozinho apenas com a minha boa e velha companhia, tudo isso ficou fora de moda, a moda é a superexposição, ser paisagem na vida que nunca acontece, a moda é ter um milhão de amigos curtindo nossas vidas plenas de felicidade virtual,  o direito a solidão e privacidade ficou fora de moda.
Adoro política, mas política no Brasil ficou fora de moda, foi enterrada junto com Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek  e Itamar Franco, os três únicos presidentes que merecem meus sinceros aplausos. Getúlio estruturou o país e deixou caminho livre para o futuro, JK era o Brasil da valorização e incentivo das inteligências, criatividades e oportunidades, era culto, prá frente, amigo das artes, Itamar assumiu o país em chamas e mineiramente acalmou nossos corações ainda ressaqueados de sarneys e collors , estabilizou a economia e mesmo quando trouxe o fusquinha de volta, estava apontando para o futuro com seu inesquecível topete, fora isso só tivemos furúnculos na política, todos malignos.
Uma criança passa brincando na beira da piscina na Praça da Purificação, sou eu puxando meus pés... É hora de acordar, lá fora há monstros bem reais, estão na moda, o amor não.





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