As cinzas e as utopias

Passadas todas as horas das minhas estúpidas utopias, me tornando seco em relação ao engenho humano de que em uma ação solidária não se encontre segundas intenções bem pessoais, olho atônito para os corações declaradamente do mal, há neles algo admirável: são sinceros. Do bem podemos cair nos lençóis do mal, mas do mal ao mal se chega, nem toda luz indica que estamos em harmonia com o que é honesto e sincero, se apresentar como bem, pode ser em última instância do carrasco a nos guilhotinar.
A palha, o trigo e o joio e há os bons corações, muitos deles acreditam que com a palha possa-se fazer pão, que o joio não vai matar o trigo. Os bons corações são selvagens, tem o estado de selvageria natural, não essa selvageria social criada pela ação política do homem, mas aquela selvageria que até o último momento acredita nas boas intenções, por isso mesmo, bons corações são assíduos frequentadores do inferno.
Com o passar do tempo às utopias vão queimando uma a uma, desabam como frágeis castelos de cartas, é como se no lugar de cada utopia fosse aplicada melancólica anestesia, não há amargor, apenas  fúnebres passagens das horas, como tudo que é cinza o vento vai levando camada pós-camada até que da pele reste apenas os ossos e não e nossas utopias não sejam mais nossa vergonha íntima.
Esse ano tem eleição: Dilma, Aécio e Eduardo Campos, são esses nomes em menor ou maior razão apresentados pelos jornais como “principais candidatos”. Para mim tanto faz, nenhum deles sentem minhas dores, nenhum deles sabe o quanto sinto o queimar das minhas mais sinceras utopias, honestamente para mim tanto faz ser o diabo ou deus que governe este país.
Podem me achar idiota, ou imbecil, mas o que meus olhos enxergam me levam para dentro desse lugar secreto chamado introspecção. Os candidatos a presidência não falam a minha língua, não sentem as minhas dores, eu sou povo, mas não faço coro com a insanidade de carregar  nas costas arame farpado untado em mel, o Brasil que eles defendem não é o meu de desconsolo e solidão, o Brasil deles é da classe média que não aperta a mão do porteiro, de quem pega o lixo na rua, minhas mãos de anos de trabalho, por mim  todos os candidatos a presidência vão tomar no cu,nada pessoal. Quero meu canto, meu abraço, minha casa, meu lugar esquecido, o Brasil dessa gente não é o meu país, o meu país é outro.





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