Encontro com: Édith Piaf

Édith Piaf
Clarice Lispector dizia que sentia saudades do futuro, Renato Russo também cantou que insistia em uma saudade de tudo que ele ainda não tinha vivido, poetas românticos sentiam saudade do passado, nele buscaram abrigo. Saudade é o dia de ontem nos dizendo que de alguma maneira nosso presente carece de sentido, de razão; sentir saudade do futuro é negar o presente e tentar ir para um lugar que só existe na nossa auto-ilusão: o amanhã. É no presente, seja ele dolorido ou feliz, que nossas vidas acontecem, só aqui neste agora é que sinto se sou feliz ou não, o passado não vai fazer nada por mim, talvez transforme minha vida em um muro das lamentações, o futuro é a esperança moribunda que nega as possíveis ações nossas no dia de hoje.
Entendo também que se não fosse a possibilidade de fuga para algum outro lugar em que nossas emoções são aquecidas pelo entusiasmo não suportaríamos a vida, seria ela lugar apenas de fadiga e cansaço, viver é também abrir portas para outras dimensões, alguns usam drogas como álcool, outros entram em êxtase espiritual, outros mergulham no labirinto do que se é, outros desenvolvem uma relação mística com a vida, tudo na tentativa de fazer do presente algo menos dolorido. Os que conseguem sintonizar suas emoções com o presente e encarar seus monstros tendem a ter uma relação menos áspera consigo e com seus “eus” que vai descobrindo pelo caminho,
Minhas emoções são sempre vivenciadas entre o que sou e o que há de litígio entre esse quem “sou” e o outro sujeito que ao andar pela rua é apenas mais um na multidão, quando ando pelas ruas sempre imagino minhas óperas favoritas, quando encontro algo que desagrada troco para os meus rock favoritos, mas de ópera em ópera, de rock em rock não deixo espaço para que a fadiga emocional me jogue ao chão, pois se eu cair pouco vou ter com quem contar, o mundo é a indiferença, solidariedade também tem cota.
Uma das minhas cantoras favoritas é a francesa Édith Piaf, em uma das suas canções diz que não se arrepende de nada, dos amores vividos, das brigas perdidas e vencidas, das boas e más coisas que viveu, mas que é preciso varrer o que passou e começar do zero, porque só assim a vida começa. Trancar no passado o ruim, ou melhor, que tivemos e buscar novas delícias para a vida não é fácil, mas é bom ser um pouco Édith Piaf e seguir enfrente.
Amar a si mesmo como a mais ninguém não quer dizer que devamos abraçar o egoísmo como bandeira de vida, não é isso, acredito no que canta Tom Jobim: “é impossível ser feliz sozinho”, mas quando digo que se deve amar a si mesmo em primeiro lugar é porque não se pode oferecer aquilo que não temos, e não podemos esperar que algo tão íntimo como a felicidade nos seja dada por outra pessoa: eu sou feliz no amargo e no bem da vida, eu sou feliz.
Não preciso dizer se sou uma pessoa boa ou ruim, se sou humilde ou arrogante, isso porque é impossível atuarmos o tempo todo, o que realmente se é dia menos dia aflora das nossas mais intricadas emoções, então tudo que sou é pessoa, gente, em mim mora o perigo e o bem, o mal e ódio, deus e o diabo, o amor e o egoísmo, eu sou gente e gente erra e acerta, mas minha vontade é de sempre acertar, meu maior Deus é amor, ele, tão somente ele, sabe aquietar meu coração.
O mal não pode vencer eternamente o bem, meu bem é esse dia lindo, essa ternura que sinto por mim mesmo, essa amizade que sinto pelo que sou. Apaixone-se por você, cuide-se, seja solidário com você mesmo, a terra um dia vai pesar sobre nosso peito e quando esse dia chegar, quero que ao menos minha alma esteja leve.




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