Classificados

Os classificados dos jornais tem alguma coisa de desespero. Há mais procura que oferta, há muitas pessoas que só compram o jornal por causa dos classificados. Há algumas ofertas de emprego, bem poucas, se vende de tudo: carros, casas, apartamentos, sexo, aulas particulares, remédio, fórmulas mágicas para perder peso e aumentar o pênis e há o obituário, esse só funciona, creio, em cidades grandes, nas pequenas os passamentos são anunciados no boca a boca ou em carros de som. De alguma maneira os classificados são um grande retalho de falsas esperanças, mas há certo índice de coisas que dão certo, para segurança do negócio, alguém tem que contar uma história de felicidade.
Na parte do emprego, notam-se algumas insanidades: “procura-se motorista, inglês fluente, carro próprio, morar no emprego, vencimentos R$ 900, OO por mês”, “ precisa-se cuidadosa de idosos, curso universitário em enfermagem, dormir no emprego, uma folga por mês, salário: R$ 1, 200 por mês” , “precisa-se de babá, antecedentes criminais, carta de apresentação dos últimos dez empregos, “ balconista de farmácia, formado em farmácia, experiencia de cinco anos, quarenta horas semanais, vencimento R$ 1000,00 por mês”.
Lembro de um programa de Silvio Santos, “ A porta da esperança” em que pessoas escreviam cartas contando dos seus desesperos e necessidade urgente de ter algo, então poderia ser escolhida para ir ao programa e abrir a porta da esperança, com um pouco de sorte voltava para casa com o que desejava. Os classificados nos jornais são igualzinho à velha porta da esperança do Silvio, alguém compra o jornal, se enche de esperança que vai conseguir emprego, mas apenas gastou seus R$ 2,00 reias que bem poderia comprar um suco com um salgado no meio da rua.
O desemprego e violência talvez sejam os maiores dramas dos brasileiros, são nossas correntes no atraso, sem emprego, sem segurança não há como caminhar tranquilo, a insegurança nos humilha na nossa cidadania,o desemprego nos rouba a cidadania. Nesta eleição presidencial nenhum dos candidatos têm propostas objetivas para combater com vigor o ao aumento do desemprego e a violência que zomba de nós e emprenha o sistema jurídico de filhos que já nascem, como diz uma música de Josane Peer, abortados.
A questão é que classificados são os últimos recursos dos donos de empresa, só colocam anuncio quando meios mais seguros de contratar alguém falham, exemplo, quando não conseguem indicações, porque o grande RH hoje é o dedo que indica, patrões se sentem seguros quando alguém indica para eles seus futuros funcionários, classificados são um loteria para eles e para desempregados.
Como o paciente terminal, o desempregado se apega ao último recurso, comprar o jornal e esperar que alguém ligue, chame ao menos para uma entrevista. Na parte de oferecimento de mão de obra podemos encontrar desde pessoas que poucos estudaram até doutores. Andando pelas ruas e noto que  três tipos de comércio  proliferam: igrejas que vendem solução para tudo, inclusive para o desemprego, bares e cursinhos que prometem aprovar qualquer um em um concurso público.
O capital se nutre das suas próprias mazelas, o desempregado por algum tempo gera lucro para quem lhe vende ilusões, mesmo quando ele não entra em igrejas, bares ou cursinhos .Seja até catando coisas para vende na “ reciclagem” alguém vai lucrar com ele e se morrer de frio em uma calçada, a fábrica de caixão vai lucrar com ele. Nosso mundo é esse, por mais que se desça no lixo da vida nunca se deixa de gerar lucro para alguém.
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