O Brasil chatíssimo

Tenho a impressão que em nenhuma outra época o Brasil foi mais chato que agora. Assistimos um desfile mórbido de delinquência política, religiosa, cultural e de fajuto patriotismo. O país poderia hoje ser próximo de outros países como China e até mesmo Estados Unidos, próximo em qualidade de vida e presença positiva do Estado no dia dia de todos, mas o que presenciamos é uma horda criminosa arrastando o país para as profundezas do subdesenvolvimento, porque sabem que só com o país mergulhado na lama é que suas ladainhas sonolentas surtem efeito em gente que tem cérebro, mas se comporta como minhocas.
O Brasil tornou-se uma grande república de suspeições, ódio, rancor e aceitação do banditismo como caminho mais curto para se chegar a algum lugar. Homens e mulheres com o coração cheio de prepotência e arrogância, perversos e mesquinhos, de ética e moral duvidosas apontam seus dedos sujos para condenar todo aquele que não se ajoelham para suas mais promíscuas pregações de pânico e medo, o dinheiro mais que em qualquer outra época se tornou: o caminho, a verdade e a vida. Inventam-se crimes para condenar inocentes, mas se carrega nas costas quem tem as mãos sujas de sangue. Dinheiro para muita gente não tem história, seja de onde vier é bem aceito e em nome dele se faz qualquer coisa.
A autoridade moral não vem da ética e de uma vida de acordo com ela, a nova ordem moral vem da força e da grana de quem a representa, não por acaso temos a impressão que somos guiados e governados pelos herdeiros dos mais notáveis facínoras.
O Brasil carece de inteligência solidária. Inteligência solidária é aquela que trabalha não só para si, aquela que nunca se coloca a cima de pessoa alguma e entende que pode contribuir para o bem comum do país. Inteligência solidária é o Pastor que mesmo vivendo e professando sua fé entende e respeita o direito o outro ter uma fé diferente da sua, por isso mesmo encarna o melhor da fé cristã que é o amor ao próximo e só ama quem respeita, inteligência solidária é o professor que passa a vida estudando, mas sua especialização, mestrado ou doutorado não coloca asas nos seus pés, pelo contrário, usa o que aprendeu para fazer ao próximo o bem que é possível ser feito, inteligência solidária é o Pai de Santo que usa seu Terreiro como uma escola comunitária, que constrói com seu suor uma biblioteca, um centro de informática e ajuda a transformar a vida de tantas pessoas independente da religião que elas tenham, inteligência solidária é o sindicalista que não usa o sindicato para professar suas crenças partidárias e que dedica sua vida pela melhora das condições de trabalho de tantas outras pessoas, inteligência solidária é o bom policial que entende que não é seu dever julgar ou condenar pessoa alguma, acredita na força do seu trabalho e por ele vive intensamente as alegria e dores de uma das profissões mais difíceis da humanidade.
Inteligência solidaria é um vereador ou deputado que não troca seu mandato por migalhas criminosas do poder e grana, que se recusa a condenar milhares de pessoas à morte quando seus pares deixam de trabalhar para a população e trabalham para esquemas degenerativos da sociedade.
Inteligência solidária é não abandonar o país que lhe deu tudo, seja o que esse tudo represente e de longe torna-se crítico da vida aqui, inteligência solidária é saber que todas essas discussões sobre raça, gênero, religião e política que ocupa a pauta das imprensa não quer bem de pessoa alguma, não quer fortalecer nossa lado bom, pelo contrário todos ( por mais antagônicos que pareçam) estão do mesmo lado, querem a mesma coisa: o poder. Por isso suas discussões são sempre abstratas e preconceituosas, no fim continuamos com nossas dores: negros são humilhados e perseguidos, mulheres continuam sendo assassinadas em massa no país, a intolerância religiosa cresce e nos assusta com sua carga de incivilidade, gays são perseguidos e mortos, nordestinos continuam sendo tratados pelo restante do país com sub-raça e tudo isso fica muito mais dramático se vier acompanhado com a carga da pobreza, porque agora além de pobres nos diplomamos para trabalhar na informalidade e morrer na formalidade de um Estado assassino. Enquanto isso supostos lideres militantes fazem seminários que estão mais para convenções partidárias nas quais se escolhe quem tem o discurso mais carregado de ódio e prepotência.
Pior que ter um líder é ter um líder que combate o fogo jogando gasolina e discursa dizendo que está jogando água, mas estamos lendo, está lá bem escrito no galão: gasolina.
Mesmo com essa chatice toda, temos um aliado ao nosso favor: a história, a história existe para nos lembrar de que tudo passa, eu passarei e os chatos de hoje também, só devemos ter cuidado com algo: ao passar quase ou nada ficará do que fui, faço parte da maioria da humanidade que nasceu apenas para compor a paisagem, o problema é que alguns chatos conseguem muitas vezes ser tornaram referência e quando se vão deixam discípulos, as novas gerações deste país não merecem herdar um país tão chato, antecipadamente peço desculpas para elas, fiz a minha parte, mas sou menor que um grão de areia... O Tempo nos liberta.



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