“Pai e Mãe ouro de mina”

Djavan canta em “Sina” que pai e mãe são ouro de mina. A maternidade ou paternidade nada tem de diferentes entre si, quem atribui a um gênero capacidade maior de amar que outro nada entende do sal e mel de amar alguém.
Pai que é pai sente e ama como sente e ama a mãe que é mãe, filho que é filho sente esse amor duplo e retribui o que sente, amor seduz amor e amor seduzido por outro amor é sincero, pode até não mover montanhas, mas certamente nos ensina a dignidade de contorná-las.
Há pai ruim, há mãe ruim, há filho cruel com seus pais, assim como o amor, o ódio também é livre, não tem sexo, não tem cor, não tem ignorância ou sabedoria , não tem condição sexual. Um casal homossexual pode adotar uma criança e ser exemplo de paternidade ou maternidade, um casal heterossexual não garante uma família feliz, a felicidade assim como o ódio e amor não se realiza tão somente pela razão, somos movidos por nossas emoções, para o bem ou mal, nossos espíritos apaixonadamente transbordam em nossas ações, nossas emoções podem nos fazer odiar e ser fonte de ódio, mas também nos deram a maravilhosa capacidade de amar e nos apaixonarmos por nossos semelhantes.
Respeito é algo que delimita nossas fronteiras, mesmo quando amam-se deve-se respeitar essas fronteiras, podemos sufocar o outro com nosso amor, o amor pode ser um fardo ou prisão emocional para alguém , amar não é vivermos tão somente para pessoa amada.  Amor é a expressão máxima da liberdade, porque quem ama não machuca, não fere, não prende, não deseja mal, se alguma coisa destas acontece, o amor adoeceu, perdeu-se nas sua próprias paixões e o sentido do próprio amar deixou de existir.
Filho também quer crescer e trilhar seus caminhos, pai e mãe ajudam a educar seus filhos, mas educação é algo abstrato, é a liberdade de cada um escolher para si os caminhos que deseja trilhar. O pai e mãe que acredita no “amor” que só se realiza em algo concreto, ou seja, que bens, patrimônio sãos as melhores coisas que podem deixar para os seus filhos, estão enganados, Karl Marx escreveu: “Tudo que é sólido se dissolve no ar”, cito essa frase de Marx, ateu convicto, para dizer que os maiores bens que um pai e mãe podem deixar para seus filhos são coisas imateriais: respeito a si mesmo e a qualquer pessoa independente do que tenha nesta vida, o exemplo de que o amor nos faz suportar com dignidade os fardos da vida, não cultivar rancores ou ódio, ter em si um amigo inseparável, saber que o dinheiro é importante, mas ter dinheiro sem a capacidade de se comover com o toque do outro é ser um morto vivo, ter compaixão, porque não sentir compaixão é ter no coração pedras de gelo.
Ser pai e mãe é saber que o amor é o grande pedagogo, ajuda-nos a suportar as frustrações, ansiedades, medos, ensina que pai que pai, mãe que é mãe não se realizam nos seus filhos, seus filhos se realizam para “ser feliz” cada um a sua maneira, pai e mãe se realizam na certeza que contribuíram para seus filhos serem felizes, mesmo que essa felicidade não seja o ideal de felicidade sonhado pelo coração materno a paterno.
Cada filho tem algo dos seus pais, mas cada filho é uma pessoa nova, cada pai e mãe com o tempo vão se tornando filhos dos seus filhos. Há os pais e mães que nunca tiveram filhos da carne das suas carnes, mas tiveram a grande dádiva de cuidar por amor, de escolher pelo coração, de ser pai e mãe pela alegria do espírito e pelos mistérios da vida, há pais e mães que nasceram neste santo planeta só para amar os filhos que nunca tiveram, mas que outros tiveram e não souberam amar. Há pais e mães que amam incondicionalmente seus filhos, sofrem com eles, vivem por eles, oram por eles e por nada nesta vida, seja lá o que seus filhos se tornem nunca vão abandoná-los.
Alguém outro dia me perguntou por que tenho escrito ou falado pouco em política. Entendo política como uma das criações  mais sublimes do pensamento humano, criou-se uma ciência puramente intelectual, abstrata que tem como finalidade fazer o bem a outro, um político seria aquela pessoa que abre mão de suas vaidades e paixões pessoais, da sua própria vida para pensar, ajudar e construir pontes para outras pessoas serem felizes. Entendo política assim, assim sinto, e não encontrando esse sentir político, não tenho nada mais a dizer, não me comove mais eleições, não me alegra mais nada dessas coisas, porque isso que temos aqui é qualquer coisa menos política, a única política que me interessa é ser um bom pai, ter orgulho de a cada dia ir rejuvenescendo nas lições que aprendo com minha filha, amar é a política de se colocar no lugar do outro, saber que não se pede o impossível para quem só tem o possível a nos oferecer.
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