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Miragens da solidão

Quando se vive longe de casa e conversamos mais com os próprios botões que com pessoas, um estranho fenômeno acontece: começa-se a enxergar pelas ruas pessoas conhecidas, ou melhor dizendo, projeta-se em outros rostos a face de velhos conhecidos, cheguei mesmo a esticar a mão para falar com um estranho, no delírio da solidão pensei ta enxergado um amigo.
Fico pensado na tragédia dos escravos que foram obrigados a cruzarem os oceanos, muitos morreram de tristeza longe dos seus, certamente eles deliravam muito mais, estavam em um país estrangeiro, não falavam a língua nativa e eram tratados como coisas, pelo sim pelo não estou no meu país e pelo sim pelo não penso que falo mais ou menos português e não me tratam como coisa.
Hoje pela manhã ao caminhar para o trabalho parei para conversar com uns garotos, aparentavam dezoito anos, estavam limpando uma fossa, às seis da manhã respiravam aquele ar de esgoto, deu vontade de falar com eles, eram do Maranhão, achei seus olhos tristes, suas vozes eram cansadas, tenho certeza que não deliram mais, não enxergam mais pelas ruas pessoas distantes as quais  seus corações têm amor.
Como o tempo vai-se vivendo no automático, como um bêbado que sempre acerta o caminho de casa, as pessoas trabalham, compram comida, comem sem nem sentir o gosto do que estão comendo, fazem sexo como se estivessem se masturbando, dormem, acordam e depois morrem como se nunca tivessem vivido.
Contei aqui do trabalho quantas vezes um ônibus com o mesmo motorista passava, passou seis vezes, seis vezes de voltas no mesmo lugar, seis vezes o motorista mecanizado, como próprio ônibus que dirige, as voltas da vida entorno dela mesma, a vida que passa pelo viajante que por mais que se mova continua no mesmo e sempre lugar.
À noite ligo em uma rádio, só toca música clássica, com o tempo fui me desligando da música pop, da música com voz, acho que não seria mais capaz nem de compor uma canção, ficou tudo isso em algum lugar que a miragem da solidão vez por outra me traz. Aqui ao lado há um condomínio, sempre converso com o porteiro, caseiro, carteiro, agente da limpeza e tudo que for preciso, Celso, ele anda o dia todo dentro do condomínio, todo de azul trabalha e deixa o restinho da sua juventude na mais valia dos moradores, só é enxergado quando alguém precisa de algo, caso contrário passam por ele e não notam sua presença isso é uma tristeza, me faz sentir pena da humanidade.
No mercadinho tem uma menina, trabalhadeira, passa o dia no caixa, ela é da Bahia, esses dias falamos de como a vida é triste para quem é essencialmente brasileiro. Lembrei-me de “Maria Maria” música do Milton Nascimento e Fernando Brant, a ideia de “quem tem traz na pele essa marca / possui a estranha mania de ter fé na vida”. Se temos essa marca na pele, e temos a estranha mania de ter fé na vida, vamos enfrente, vida pede vida, sede pede água, amor pede amor, carinho pede carinho.
Delirar e enxergar pelas ruas algumas pessoas que desejaríamos encontrar é uma maneira de viver menos dolorosamente a solidão, no meu caso são poucos delírios, desses meus quarentas anos de vida poucas pessoas fizeram pouso em meu coração, poucas pessoas me fizeram delirar com momentos de amizade, amor, solidariedade e gratidão. Não estou lamentando, sou grato a todas elas e canto junto com Milton Nascimento: “mas é preciso ter manha/é preciso ter graça/ é preciso ter sonho sempre”... Fé na vida!




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