Mãos calejadas, meu Deus.


Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos.
O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria casa. O Trabalho braçal segue como sempre foi, um misto de humilhação e escravidão, humilhação não pelo serviço em si, mas pelo desprestigio que a sociedade lhe impõe, escravidão porque geralmente o trabalhador braçal trabalha apenas para comer.
Uma aluna minha de apenas nove anos de idade disse: odeio os lixeiros. Argumentei que ela estava errada a começa chamando os garis de lixeiros, falei da importância deles, mas não adiantou muito, a ideia que ela tem do trabalho braçal é a mesma dos seus pais: humilhante e escravista.
Outra conhecida minha escondia o namorado das amigas e amigos porque ele era entregador de pizza. São muitos os exemplos, mas fato é que se desejarmos mudar isso devemos começar na educação dos nossos filhos em casa, não esperar pela escola porque é na escola que a criança tem as primeiras lições de desrespeito aos profissionais que usam a força do braço para ganhar a vida: porteiros, merendeiras, vigias ou zeladores não são tratados como parte da escola, não existe sequer um dia de festa para eles, não se lembra deles em nenhuma data especial e é comum professores passarem por eles na portaria ou corredores e nem um bom dia desejarem.
Há uma canção católica que diz: “sou lavrador/ home da roça/ vivo cansado meu Deus/ com as mãos grossas”. O lamento do homem do campo ecoa em todos os cantos e países, ainda temos muito a aprender, principalmente a lição essencial: respeito, solidariedade e ter como verdade a máxima: todo trabalho é digno, principalmente quando vêm com reconhecimento, salários justos e respeito social pelo que se faz.


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