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Martha Galrão em três atos

1º Ato: “Um rio entre as ancas” publicado pela poeta Martha Galrão nos apresenta uma poesia lasciva e de  transbordante sexualidade: “A melhor parte da festa/ foi você/ beliscando meu vestido/à altura da coxa/ me puxando pela segunda vez:/ “ vestido lindo”/ tão rápido / só nós dois sentimos./Tão sútil/ só nós dois sabemos /Protegidos por Nossa Senhora do Silêncio/”. “Um rio entre as ancas” tem apenas treze páginas nas quais o leitor mergulha em imagens flertantes com os mistérios que envolvem duas pessoas atraídas pelo desejo equilibrado entre a energia do sexo e a paixão do amor: “Namor, meu príncipe de submarino,/ em noite de festa, você é o peixe/ a que me agarro para surfar à flor da água”. Essa delicadeza sedutora se faz presente em todos os poemas de “Um rio entre as ancas”. O título do livro é pura sensualidade, um rio viril que corre entre as ancas, mas o que sugere coroação do êxtase é apenas o começo da magia poética do livro: “Como esconder dos mortais/sua coloração castanha/ impressa em minha íris?/ Como esquecer o delicado roçar das cabeças / a cernelha, as lambidas?”.
2º Ato: Em a “Chuva de Maria”, Martha Galrão volta-se para suas inquietações, alguns poemas são pontes quase autobiográficas, saem dela para em retorno leva-la novamente ao confronto consigo, o mundo é o que causa estranhamento: “ Por muitas noites e luas/ em uma garrafa de náufrago/ deslizou na águas do rio/ a promessa que lhe faço”.  A imagem do amor em a “Chuva de Maria” pode ser delicada: “ São lavores ,/ meu amor, são bordados/ de muita delicadeza”. Ou pode ser uma imagem desconcertante: “No abraço / escutarei em meu peito/ a desordem do seu coração”. Essa não linearidade na escrita da autora, a não monotonia em lidar com temas comuns faz da sua poesia o lugar prazer para o leitor, é um convite a reler nosso cotidiano com outros olhares, às vezes inquietos: “lampejos/ aos trinta meu corpo verga/ de temores e prazeres/ anseio um dia estarei mais velha”, outras vezes contemplativos:” Como se eu fosse a mãe da terra, molho e vou abrindo/ as folhas da grama como se fossem cabelos/ arrancando/ os matos como se fossem piolhos”.
“A chuva de Maria traz em sua “orelha” um texto cheio de reminiscências da autora: “Sou pinha, tangerina/caju e seriguela. Acarajé, vatapá e camarão. Sou Ubaíra, os primos e os recantos secretos, as frutas , os bichos, a terra. Os jornais, meu avô. Sou andar de bicicleta, em bando, no Parque de Pituaçu”. A autora segue descrevendo os saberes da sua infância, as saudades presentes, nostalgia das horas  distantes, o encontro da mulher adulta com a criança nas cirandas do tempo.
3º Ato: Se a nostalgia pontilha “A Chuva de Maria”, em “Muadíê Maria”, livro em prosa de Martha Galrão, temos uma autobiografia poética da autora, nos comovem as reminiscências do seu pai, a discrição que ela faz dos momentos felizes que viveram juntos, Nos apresenta também seu avô, nos parece um desses personagens mitológicos que se assusta pela austeridade, encanta pela capacidade de nos emocionar nos pequenos detalhes de uma relação afetuosa.
Chamou minha atenção a história de amor entre “Vó Augusta” e o “ Vô Lindolpho”, ele tinha um caderninho com poesias feitas para amada, o que foi feito do caderno? A autora nos conta que o caderno foi escrito com letras lindas, fiquei pensando uma edição em fac-símile com desenhos feitos a mão, um diário amoroso em prosa, saudade chama saudade.
São muitas histórias em “Muadíê Maria”, mas o que traz refinamento ao texto é a delicadeza da escrita, a autora escreve como se estivesse sentada ao nosso lado revisitando seu passado entre uma xicara de café e outra, temos uma ideia de “amizade” no texto ou cumplicidade entre a autora e seu leitor, mesmo sendo um livro autobiográfico pode ser lido como um romance, em cada história contada encontramos alguma coisa de nós mesmos: a saudade do pai, a alegria de visitar os avós, alguém que tinha premunições e por isso teve uma vida marcada pela agonia de olhar a si mesmo já sabendo o que seria ou não seria no dia seguinte e viver a agonia de  uma vida sem novidades,o primeiro livro dedicado a mãe,  os ritos de passagem, enfim, a festa da vida com suas ressacas e calmarias.
São três livros que se completam, uma trilogia, escrita talvez sem a intenção de ser, mas que acabaram se completando, três estágios diferentes de escrita: a sensualidade, a alegria do amor e o reencontro com o passado. Nada piegas, nada é desnecessário. Na literatura de Martha Galrão, parafraseando Antoine Laurent de Lavoisier, nada se perde tudo se recria e uma leitura nunca é a última, aqui tão somente a minha.
http://edineysantana2.blogspot.com



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