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Plantando Orquídeas

Ediney Santana- Foto Renata Madureira 
Nunca fumei, nem nunca achei elegante baforadas ao final da tarde, mas há quem jure que sempre fumei, não só cigarro como maconha também, geralmente sabem mais sobre nós que nós mesmos, é estranho, mas há pessoas com mania de definir os outros, talvez o definidor de vidas alheias acredite que ao sair por aí reduzindo pessoas a própria baixa visão que tem de si a faça poderosa.
João Cabral de Melo Neto escreveu em carta a um amigo: “Gostaria, francamente, que se esquecessem de minha existência como escritor. Isto é, gostaria que a gente de hoje antecipasse o esquecimento que virá para minha poesia dentro de breves anos”. Então ele gostaria de ser lembrado apenas como o João? Mas se foi o poeta que fez o homem maior que sua breve existência? Pelo sim pelo sim também, se a poesia do Melo Neto será esquecida, o que dizer da minha? Se é que eu posso dizer “poesia” do meu assassinato cotidiano da sintaxe, pior da semântica.
Li um artigo sobre a vida do João Cabral, falava que ele não participou de grupinhos literários, isso porque viveu muitos anos longe do Brasil, era embaixador, eu vivo aqui e não participo de grupo algum, pensando bem, sou uma camarada sem geração, sempre tive a impressão que muitos dos meus “amigos” torciam pela minha derrota. O que me mantem de pé é essa força espiritual que não sei de onde vem, solitário como a estrela Dalva, como dragões plantando orquídeas.
Sou meu fato consumado, bebo em doses quiméricas as últimas estações ao fim da rua, não pertencer à geração alguma, editar livros que nunca foram lidos por mais de dez pessoas, me fortalece o amor que tenho por mim, sem ele a vida seria insuportável.
Domingo tem eleição,mais uma vez não votarei, estou fora do meu domicilio eleitoral, se fosse votar votaria no Aécio, mas às vezes tenho pena da Dilma, não me parece uma pessoa feliz, pensando bem, não tenho pena não, a infelicidade dela é por vontade própria, se deixou ser inventada, criaram até um conto de fadas para sua melancólica vida:  heroína romântica pronta para nos defender do “ dragão da maldade”.
Quase todo mundo que eu conheço que vai votar na Dilma, vota por algum interesse pessoal: o irmão tem um cargo, medo de perder algum programa social, medo de ficar sem emprego por contrato na prefeitura, medo de perder os cargos e voltar para sala da aula e ter que encarar os colegas que foram tão pisados.
Há mil motivos para votar na Dilma, só falta um: O Brasil, incrível, como sempre se tem algum interesse, mas o país pouco importa. Brinquei outro dia com um amigo, disse que a coisa tá tão feia que qualquer dia desse vão  tombar o hambúrguer à brasileira, criarão uma associação dos fazedores de hambúrguer, escreveram projetos em editais e ganharam fartas verbas para proteger nossa secreta receita do hambúrguer à brasileira, enfim são muitos os motivos para se votar na Dilma, menos o Brasil, o Brasil não importa, por aqui há os que se acham europeus, africanos, menos brasileiros, cada um leva seu pedaço e o PT está disposto a pagar para ficar ao final com todo o bolo.
Gosto do silêncio do meu apartamento, fico lá pensando na mãe, na filha, irmãos. Às vezes penso o quanto Deus é bom e quanto também é filho da puta, a sensação que tenho é que os filhos da puta terrenos sempre vencem o jogo entre a ética e a estética, para o Brasil vale a estética , mas que a ética.
Amar, amar é o que ao fim importa, seja Dilma ou Aécio, eu amo, continuarei amando, não importa as condições que eu esteja, não sinto falta de um milhão de amigos, sinto fata da caminha quente de casa, de chamar por minha mãe e ela responder, de levar minha filha para comer churros na Purificação, amo tanto e de tanto amar continuarei amando.

                                

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