Janelas do cotidiano

Ediney Santana-Foto Renata Madureira
Pela janela a vida passa, pela janela nós passamos, ao fim só as janelas continuam olhando. Foram as janelas inspiração de Juliano Cazarré para escrever seu livro de poemas “Pelas Janelas”. Da janela de um caixão na qual um morto divaga sobre seu ocaso  as ternas janelinhas de uma criança banguela muita janelas se abrem neste livro, mais que estáticas, ganham vida pela poética do Cazarré.
O cotidiano apresentado em “Da minha janela vejo”, pode ser comovente como nos versos: "A flauta de brinquedo do amolador de facas/ um homem comum com um jornal que verte lágrimas” ou poder ser dramático: "Uma ambulância/ o grosso catarro”, mas não menos lírico em versos como: "um avozinho de bengalas trazendo dois pães pro café / um para si e um para sua senhora”, triste e reflexivo: "Um avozinho de bengala trazendo um pão pro café / para si, apenas.”
De janela em janela o autor vai criando um mosaico cotidiano, às vezes prosaico, como nossa rotina nestas cidades com gente e pouca vida: “não posso me esquecer delas/ das putas de amsterdão/lindas em suas tristes janelas de solidão”. São janelas que sentem, nos provocam não só a  olharmos para a rua, mas para nós mesmos: “São janelas que escondem/ o que acontece dentro da casa/ Janelas, de tão discretas/ Dir-se-iam janelas castas/antíteses das antigas janelas /que eram janelas devassas”.
Janelas que acreditávamos eram da casa de Deus: “menino, por pequena janela/segregava, eu, ao vigário/meus medos e pecadilhos/no seguro do confessionário”, se os olhos de criança tinham fé na instância máxima dos nossos delírios, os olhos adultos se encantavam com as janelas abertas para a natureza dos dias bons:” Manhãs de primavera/ suave é a brisa/ indescritível é a dança de cortinas”, continuamos a olhar por essa janela até que ela nos acaricia a alegria de viver: “manhã de inverno e de vento/ Pássaros extintos/ assobiam cantigas de esquecimento”. Janelas que nos comovem com a delicadeza sóbria dos seus versos.
São também insólitas as janelas desses dias indelicados: “Existe uma janelinha mágica/ De onde o cerrado é mais áspero/ E a caatinga mais cacto / parecem macia relva”. Insólitas porque nos trazem em meio à negação da alegria o prazer de contemplarmos a vida: “a riqueza da alma de qualquer homem vem do que ele vê/ e do que ele imagina”. São janelas que insistem em manterem-se abertas para a descoberta do mundo: “Janelas são coisas/ De que todo homem precisa/Janelas pra dentro e pra fora/ Para dois pontos de vista”.
As janelas vão se abrindo uma a uma nas setenta e cinco páginas do livro lançado pela Dublinense em 2012, uma a uma vamos olhando o mundo e somos também observados pela poesia do Juliano Cazarré, suas janelas poéticas são um convite para nos debruçarmos sobre nossas janelas interiores,afinal: “A janela da poesia/ É de todas a mais aberta/ Impossível fechá-la ou contê-la. É Ampla . É Incompleta / Escancarada , eu diria/ Puta de pernas abertas,Fonte de todo prazer/ E de toda doença venérea”.
PS- Juliano Cazarré é também ator, durante o lançamento do livro no CCBB-Brasília, falei para ele pensar na ideia de fazer um longa contando a vida de Augusto dos Anjos, há em seu livro um poema em homenagem ao Augusto.


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