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Leituras Clandestinas

Minha primeira tentativa de encontrar Clarice Lispector foi com “A Maçã no Escuro”, as divagações de um homem fugitivo da cena de um crime me cansou, talvez a densidade dos seus pensamentos, a aspereza e secura com que Martin (personagem central do livro) mergulha nos seus dilemas me deixaram tonto e em agonia ao visualizar um homem que foge de um crime que não se sabe se ele cometeu mesmo, a idéia da culpa é ampliada em toda sua comoção por Clarice Lispector. A Agonia de Martin, suas crueldades somadas à idéia de culpa parece que o purifica e o faz renascer, torna-se outro pela dor de saber quem se é e de saber-se também dor para outras pessoas.
A segunda tentativa de encontrar Clarice Lispector foi em “A Hora de Estrela”, livro que me causou certa acidez no estômago. A idéia do nordestino que ao chegar ao sul fica abobalhado (como em Sampa de Caetano Veloso) me deixar profundamente irritado, para mim a grandeza da vida não está em uma cidade grande ou pequena, está nas pessoas, pessoas são grandes ou pequenas independente de onde tenham nascido, “A Hora da Estrela” me fez senti certo ódio de Macabéa( protagonista ou anti- protagonista do romance) , sua incapacidade de reagir é constrangedora, a “Hora da Estrela” foi a grande derrapada literária de Clarice, o livro é recheado de velhos clichês , uma espécie de sub-tratado sociológico dos pobres, sem falar no olhar apequenado para o nordeste e agigantado para o sul. Macabéa é o Zeca Tatu de Monteiro Lobato recriado por Clarice, mas sem a ingenuidade santa do Zeca, Macabéa é pornograficamente desumanizada por Clarice.
 A terceira tentativa de encontrar Clarice Lispector foi em “Felicidade Clandestina”, vinte cinco contos nos quais a autora escreveu sobre família, questões da “alma”, adolescência e outros temas transversais. O título do livro é maravilhoso, a idéia de uma felicidade clandestina, nem espontânea, nem oficializada, por si só o titulo do livro é um belo encontro entre prosa, poesia e filosofia sobre a nossa condição no mundo.
O conto que nomeia o livro foi o momento em que mais encontrei Clarice, também vivi felicidades clandestinas, mas não por causa de um livro que nunca chegava (como a personagem principal do conto, sempre na ansiedade por ler um livro prometido), minha felicidade clandestina sempre foi a própria felicidade, além ter algumas angústias parecidas como a personagem principal do livro, quase sem amigos, assim como ela, sempre reinventei meus dias e fui vivendo ao meu modo minha felicidade clandestina.
Quarta tentativa de encontrar Clarice Lispector: “A Paixão segundo G.H” é o banal levado a tortura emocional, uma mulher demite a empregada, esmaga uma barata, come a barata e começa a refletir sua condição de parasita social, talvez se sentindo meio barata, vivendo nas sombras de uma sociedade artificial e sem razões objetivas.
Ao comer a barata “G.H” mergulha no nada existencial, encontra-se com o vazio parasitário que talvez sempre esteve presente em si, mas nunca  havia aflorado de maneira tão angustiante.
A paixão em G.H é dolorida, é a escalar  uma montanha sem oxigênio, a purificação pela dor de sermos. O texto mergulha em uma filosofia existencialista, cada frase não deixa de ter a poesia como caminho. Narrado de maneira rápida, o leitor é arrastado para uma vertigem de emoções, paixão marcada por dores, filosoficamente amargo.
Clarice escreveu para nos tontear as emoções, para nos desafiarmos a lermos até o fim seus espelhos estilhaçados, alguns vezes caminhei com ela, outras deixei pelo caminho, é uma autora difícil, densa, não é para corações sensíveis, Clarice nos morde a cada frase escrita, nos deixa nus, nos pede que a deixe, nos pede que a segure pelas mãos, sua obra é singular, rara certeza de que maior que a vida deve ser a obra que se deixa.




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