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Trágica. 3( a arte do diálogo enquanto só)

Trágica. 3 é um espetáculo para quem se permite dialogar com os mais lascivos e ao mesmo tempo conservadores sentimentos que temos, é o passado fazendo ranhuras em nossas vidas habituadas a tragédias por vezes servidas cruas  e em pequenas doses cotidianas, Trágica.3 nos pega pelo estômago, ou melhor agarra nossas almas e as puxa pelo umbigo, fazendo um novo parto em algum lugar da antiga Grécia em que paixões não rimavam com pecado. Durante os 75 minutos de Trágica.3,podemos ser livres, mergulharmos neste intrigado labirinto que ser gente nos aprisiona e nem sempre  temos a coragem de desafiarmos nossos Minotauros interior.
Três grandes atrizes ladeadas por dois atores (Fernando Alves Pintos e Marcello H) e suas vozes precisas, que entre uma cena e outra nos lembram que estamos todos vivendo em dramática existência, e que é preciso resistir as nossas inquietações mais amargas, vencermos as vozes inimigas que trazemos conosco.
Três atrizes, três peças ligadas pela emoção, espanto e êxtase que causam ao público: Denise Dell Vecchio é Medeia, a atriz arrebata o público por sua voz exata, diz o que deve ser dito de maneira visceral e faz tremer nossas mais sólidas quietudes, nos envolve com o drama de Medeia,  nua em palavras e emoção. Letícia Sabatella abre a peça e nos leva a um encontro dramático com Antígona, ao piano Letícia entoa cânticos tão suaves quantos extremamente sensíveis, sua voz ao cantar é a maestrina em meio à escuridão do teatro, é o que comove e prepara o caminho para que Antífona ressurja atual e tão próxima da gente quanto uma vizinha espedaçada por perdas e angústias. Miwa Yanagizawa nos despe corpo e espírito ao trazer Electra, é sedutora a atuação da atriz, sua expressão facial, seu olhar profundo e intenso, sua voz dosada entre o delicado e o áspero. Ao assistirmos a Electra de Miwa Yanagizawa somos arrebatados para sua apaixonada interpretação de uma mulher que se tem algo de cruel, tem também algo de libertador, catarse e alivio dos pesares da vida.
A direção da peça é de Guilherme Leme, os textos dos autores clássicos, Sófocles e Eurípedes foram adaptados por Heiner Muller (Média), Francisco Carlos (Electra) e Caio de Andrade (Antígona). Três textos difíceis, mas que foram bem recriados pelos autores e bem conduzidos pelas atrizes e atores. Trágica. 3 é uma peça que nos diz o quanto é possível fugir do lugar comum, do riso fácil e apresentar um trabalho denso e comovente. Se o sentido das tragédias e nos purificar, purgar nossos sentimentos mais ásperos, nos confrontar com a beleza e dor, a peça realizar com talento e profissionalismo isso tudo.
Ps-A peça se encontra em cartaz no CCBB-Brasília


                                                                                              


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