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Faith no more

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Minha incapacidade de ter uma religião não só é uma questão de ter fé ou não, nada objetivamente tenho contra a ideia de Deus, penso o quanto é sempre interessante entender que em algum lugar há alguém com poder suficiente para nos colocar no devido lugar da nossa insignificância entre os seres dessa natureza tão generosa, no entanto a própria natureza já nos colocou neste lugar: nós morremos e nada que façamos, seja qual for o seu deus ou sua crença pode mudar isso. O medo da morte definitiva nos fez criar uma cadeia de crenças, cada uma mais vaidosa e arrogante que a outra, por isso a única religião possível para mim é a que não ofereça salvação alguma, a que traga paz de espírito e contentamento pela vida e não prometa me ressuscitar do silêncio eterno.
Minha incapacidade e má vontade com religiões vêm da observação dos caminhos que religiosos tomam, às vezes me assusto com o teor de ódio destilado em nome de “deus”, o amor que deveria ser a primeira vocação para os santos de plantão perde para outro sentimento: o ódio. Aliás, ódio e intolerância não raro são os cartões de visitas para o exercício da religião, falo religião porque essa perversidade da fé circula em várias religiões.
Seja qual for a rota seguida para se aproximar de Deus, sigo a minha sem intermediários, não posso curvar minha cabeça para um homem ou uma mulher e deixa que definam os passos que levam a Deus, nenhum homem ou mulher tem santidade para em pureza dizer como devemos nos comportar para viver uma relação com Deus.
Em nome de Deus tem-se matado, destruído países, em nome de Deus ouço risadas quando alguém leva uma queda, o deus que se cultua por aí é sádico e perverso. Se eu hoje ficar doente ou entrar em desgraças, para os lunáticos da fé não será por condições biológicas ou políticas e sim por escrever esse texto dizendo que não faço parte de credo alguém e nenhum homem ou mulher tem sobre mim autoridade religiosa.
Religião deve ser algo pessoal, não institucionalizada, quando se institucionalizou a religião criou-se um fato político sem precedentes,a fé aliada à política degolou cabeças, escravizou pessoa, provocou a morte e a destruição de civilizações inteira como as dos índios. Não há uma religião menos ou mais pior todas são igualmente nocivas, o que as difere é o poder político e econômico que cada uma tem.
Deus é meu estado de crenças e relação com a natureza, é na natureza que sinto a presença da divindade, nesta relação entre eu e esse universo fascinante materializo minhas crenças e fé, não temo pragas e nem o autoritarismo de líder religioso algum, sobre mim eles não tem autoridade alguma, a única autoridade que temo é à força da natureza, senhora absoluta da vida e da morte.
Para natureza não há morte, quando meu corpo não pertencer mais a minha consciência, será parte de outra forma de vida, talvez uma pequenina árvore, uma formiga, uma gota de água, um peixinho em um rio, enfim não se morremos nunca, nos transformamos. Então minha preocupação não é voltar, renascer como eu fui e sim o que deixarei para quem ficar, qual será minha contribuição para que esse mundo tenha se tornado um mundo um pouco melhor.
Tenho minha crença pessoal é só minha, intransferível, é algo que sinto e tenho prazer nisso, não há receita, não sou de templos e nem de lideres, sou de algo há muito esquecido: sou do amor.
Cada um pode deixar alguma contribuição para um mundo menos triste, não há neste sentido contribuição menor ou maior, todo gesto que for para vida é importante, toda coração que bate para além da sua própria felicidade é muito bem vindo.

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