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Meus anjos

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Hoje pela manhã estava no ponto de ônibus em Taguatinga-Brasília, lia tranquilamente o jornal quando um pequenino senhor, moreno, voz doce e olhos cheios de ternura me fez um pedido inusitado: pode ler meu signo? Confesso que achei o pedido estranho, nunca alguém me pediu tal coisa e ainda mais no meio da rua, fiquei um pouco assustado, cidades grandes nos deixam assustados com qualquer coisa, até quando alguém diz que nos ama. Li o signo, ele era de Aquário, ao terminar a leitura o senhor exclamou-perguntou: ta ruim!? Disse que o signo estava falando de mudanças,  o que era bom.
Voltei a ler o jornal quando o senhor retirou um papel do bolso, perguntou se eu podia ler o endereço escrito nele, justificou o pedido dizendo que esquecera os óculos, no papel havia o nome de uma linha de ônibus, 355, ao informar isso  me perguntou se eu ia para esse lugar e se fosse quando o ônibus chegasse  avisasse para ele.
Aquele senhor não sabia ler, usou a história do signo e do esquecimento dos óculos por vergonha de dizer diretamente que  era analfabeto. Dias antes no meu trabalho entrou um rapaz e me fez a seguinte pergunta: dona Damiana, qual a letra que começa o nome? Respondi que tanto dona quando Damiana começavam com a mesma letra D, ele achou graça e disse: “ dois d” dona e Damiana.
Essas cenas aparentemente prosaicas me derrubam, me encolhem, me apequenam, são cenas de um país que escolheu em muitos casos o caminho da inércia, do não enfrentamento das nossas mazelas. Se a classe média sonha em fugir do país em busca talvez de dias melhores, resta os pobres o viver e conviver com suas misérias, quando essas misérias deveriam ser enfrentadas, derrotadas e varridas para longe das nossas vidas.
O analfabetismo esteve presente em toda minha história familiar, meus avôs, tios, pai e mãe eram analfabetos, minha mãe foi alfabetizada por mim, mas meu pai morreu antes que  tivesse condições de alfabetizá-lo. Não consigo por tantas razões ser indiferente a esse flagelo social que é o analfabetismo, agora temos além do analfabetismo primário, o analfabetismo funcional, pior,não raro encontro pessoas com todo ensino básico completo, cursando faculdades e com graves problemas de leitura e interpretação de textos.
Meu amigo Sérgio Damião me relatou que na universidade na qual estudava, uma universidade federal, alunos reclamavam dos professores quando tinham que ler textos com mais de cinco páginas.  Algo triste, triste porque aponta para nossa falência social, para nossa falência enquanto pessoas capazes de produzir conhecimento, de interpretar o mundo e mais que  ser personagem nele, sermos autores da nossa história.
Se não enfrentarmos de maneira nua e crua nossos dilemas, nossa falta de estrutura social e política pouco avançaremos, o país vai ser sempre essa eterna promessa de lugar mundo que nunca se concretiza ou ainda pior: seremos sempre essa nação prostitua, escravizada, violentada e sem paz.


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