O Homem sem pátria

 O homem sem pátria não tem raízes, amigos ou amores, vive como vive todas as coisas que existem apenas para compor a paisagem, o homem sem pátria é o equívoco da natureza, aleijado do Estado, nem brasileiro nem qualquer coisa, o homem sem pátria quer morrer, mas não morrer, sua sina é sentir da dor a pena da eternidade, o homem sem pátria não é triste ou infeliz, é o sentir que machuca, pode-se olhar e ver através dele, o homem sem pátria nasceu no Brasil, mas não é brasileiro, porque coisa não é de país algum, o homem sem pátria morre todos os dias enquanto tomamos café, o homem sem pátria é consciente que lhe falta consciência.
O homem sem pátria sangra, geme, dorme na rua, roça sua boca nas bocas dos cães sujos, o homem sem pátria é a soma do lixo, a dor da delicadeza, o impossível do céu, corta as veias, mas não há sangue, o homem sem pátria é isso e nada é, o homem sem pária tem rinocerontes no estômago, olhos de ameba, é ele uma ameba, o homem sem pátria é o dizer incomum que nada diz, o homem sem pátria não nasceu, não morreu, não é, o homem sem pátria tem medo.
O homem sem pátria é morto pela polícia do Estado, o homem sem pátria é o inimigo de si mesmo, o homem sem pátria morre em hospital lixo, sobrevive ao lixo, o homem sem pátria é a natureza da ausência.
O mundo não é o mesmo em qualquer lugar, o mundo é áspero, azedo e amargo, em algum lugar na morte o paraíso deve existir, a morte não é o horror do caixão, a putrefação do corpo na terra, a morte não é a coisa boa dos espíritas, não há espírito, apenas a morte que liberta e cativa.
 Ando para dentro do abismo que sou, não há luz e nem esperança ao sol, não há perdição, o homem sem pátria mastiga placenta, se revive morte, o homem sem pátria não quer mais nada, quer esquecimento e beleza ao tempo, o homem sem pátria morreu na manhã de ontem, foi fuzilado por dez mil soldados, todos armados de esperança e alegria, o homem sem pátria não vai deixar saudades.
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