Sua história

Certa vez um dos filhos de Wilson Simonal disse que não iria passar a vida limpando a poeira do caixão de seu pai, mas se ele não o fizesse quem o faria? Esses dias falando com um amigo ele comentava da estranheza que era escrever uma autobiografia e ainda pior: fazer um documentário de si mesmo. Para mim alguém pode escrever uma autobiografia porque quer registrar uma história que ninguém mais se interessaria em registrar, ou para satisfazer o próprio ego, tentar criar um personagem que nunca existiu de fato. Outro amigo alertou que uma autobiografia não era a exata representação da vida de alguém porque tudo seria mostrado apenas por um ângulo, faltaria então à visão de quem conviveu com o autobiografado, seus amigos, inimigos e por aí vai.
Escrever uma autobiografia ou produzir um documentário de si mesmo pode parecer muito estranho, pode-se cair no erro da super valorização de si mesmo ou o contrário cair na auto-piedade e tentar convencer o leitor o quanto todos foram injusto com sua biografia despedaça pelo anonimato ou com sua obra (se for o caso) e agora é merecedor, ao cair das sombras, de ser redimido, aceito, valorizado ou colocado no pedestal que ele acredita ser merecer. 
Todas essas questões me fez pensar algumas coisas. Primeiro: toda pessoa tem direito a memória, tem o direito de ter sua vida documentada, segundo: nem todo mundo desperta o interesse dos documentaristas ou biógrafos, quase sempre movidos pela possibilidade de biografar ou documentar alguém que tenha uma história economicamente lucrativa e por último se eu ou você pessoas "simples" não se importar em registrar nossa história quem iria?
Não existe vida desinteressante, ter uma vida simples não é ser desinteressante . Claro, algumas pessoas por algum motivo ou pelo que fizeram, não importando se tenha sido bom ou mal se tornaram figuras históricas para além do círculo familiar ou de amigos
Quando se chega aos quarenta anos já temos uma noção de como será o mundo sem nossa presença, já se pode olhar para trás e racionalmente saber nossa importância para além de nós, o que construímos ou destruímos, dentro disso tudo cada vez mais a imagem da família vai crescendo, os amigos vão se distanciando, os sonhos de juventude quase todos vão se mostrando menos possíveis, a realidade nos amarra a multidão e não há como sair dela, apenas mais um que ao morrer vai encerrar a vida ali na vala comum como a maioria das pessoas.
Se o tempo nos coloca no lugar exato que nos cabe e nem sempre é o lugar que foi desejado, então documentar nossa própria história faz sentido, porque neste lugar que pode parecer estranho é o lugar que exige de nós desprendimento para o que somos.
Esses dias alguém me perguntou por que eu insistia em publicar livros, gravar vídeos com meus poemas se as vendas e audição eram quase zero e se nunca falavam deles. Respondi que neste exato momento de minha vida meu maior interesse era deixar pistas para minha filha de quem fui, ter ou não pessoas interessadas no que faço para mim é indiferente, a internet nos traz a possibilidade de escrever o montar nosso próprio museu, isso para mim é a única questão.
Se não registrar e contar minha própria história quem faria isso por mim? Seu eu não editar meus livros quem faria isso? Cada um tem o direito a contar sua história seja guiado por equívocos ou não. Ter sucesso, ler lido ou ser querido pelas pessoas é outra questão, nesse momento me satisfaz saber que editei meus próprios livros, gravei minha lendo meus versos que tortos ou não são poemas do meu tempo, da minha razão de mundo.



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