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Lições de João Cabral de Melo Neto

Grupos de escritores só não são piores que grupos de políticos. Escritores nunca são essencialmente amigos uns dos outros, há sempre velada competição, há sempre uma leitura que segue diretamente para o próprio ego, escritores são seres que podem ter enorme talento, mas alma nem sempre branda e sincera, o melhor é não trocar a obra pelo autor, caminho seguro para termos sempre um bom livro de cabeceira sem a presença de quem o escreveu.
João Cabral de Melo Neto viveu muitos anos fora do país, era reservado, não frequentava panelinhas literárias. Foi eleito para Academia de Letras, mas não nunca foi da turminha, como diria Raul Seixas, “do dengo”. O talento e tão somente o talento foi sua ponte até a casa de Machado de Assis, Machado que adorava panelinhas, não por acaso criou a Academia de Letras.
Dalton Trevisan é outro escritor que soube com maestria construir sua carreira sem participar de panelinhas ou ter amizades de ocasião com diretores de suplementos literários, por exemplo. Exilado por vontade própria, Dalton Trevisan é umas das páginas mais significativas da nossa atual literatura. O Dalton deve ser feliz em seu exílio longe dos programas de entrevistas e revistas escritas por especialistas em tudo e em nada.
J.D. Salinger foi outro autor que passou a vida inteira longe de panelinhas literárias, exilado em sua fazenda nos Estados Unidos, pouco se sabia de sua vida, mas muito da sua obra. Talvez de todos os autores que viveram reclusos J. D. Salinger tenha sido o mais radicalmente feliz, ao negar ser mais celebre que sua obra ele nos traz um testemunho importante do quanto manter distância de amizades anêmicas é importante.
O poeta Manuel de Barros na juventude até que tentou entrar para panelinhas literárias quando foi ao Rio de Janeiro, mas percebeu em tempo que isso não seria nada bom, voltou para seu Pantanal e longe dessa amarga civilização transformou-se em um dos mais impactantes poetas da nossa literatura, escrevendo sobre suas raízes falou ao mundo e foi feliz assim.
Mário de Andrade escrevia cartas, muitas cartas, milhares de cartas. Ao contrário dos autores citados, Mário, talvez sentisse necessidade de interagir, ser ouvido. Muitas das suas cartas para outros autores foram transformadas em livros, não sei até que certo ponto isso foi bom para o Mário. Se todo o tempo que foi gasto escrevendo tantas cartas fosse aplicado a sua literatura talvez tivesse sido maior do que foi e hoje não seria quase que apenas um nome preso na Semana de Arte de 1922. E é a Semana monumento maior as panelinhas literárias. A confraternização de uma agonia que já dura noventa e três anos, muitos que estavam naquela noite se soubessem que nunca sairiam dela certamente nunca teriam participado.
Gosto de literatura, leio muito e compro muitos livros, admiro muitos escritores, não posso dizer que sou escritor ou poeta, não posso, há muitas pessoas importantes que escrevem. Sou apenas inquieto, cometo “versos” e “romances”, como na música do Kid Abelha transformo meus rascunhos em arte final, mas mesmo sendo apenas rascunhos, sou também feliz no meu exílio voluntário, tenho medo de gente e se for escritor tenho muito mais ainda.




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