Pular para o conteúdo principal

“Quarto de despejo”


Carolina Maria de Jesus escrevia seu diário com a certeza que um dia ele seria publicado. Moradora de uma favela em São Paulo, Carolina tirava do lixo o sustento seu e dos seus filhos e dos livros o sustento “espiritual” para suportar as dores da vida. Com poucos anos de estudo Carolina demonstrava comovente amor pela leitura de livros e paixão pela escrita, mesmo depois de um dia inteiro de penação cantando papelão e ferro velho para vender ao chegar em casa não dormia sem ler e escrever.A intuição de Carolina não estava errada. Seu diário, “Quarto de despejo” foi publicado, sucesso de público e crítica. No livro encontramos o relato duro e seco da vida dos pobres favelados nas grandes cidades, mas Carolina não só descreveu essa vida dura, transformou seu diário em uma novela carregada de poesias e reflexão sobre a luta pela existência.A fome e o desespero pela busca de alguma coisa para comer pontilha toda narrativa, podemos dizer que é a fome a personagem central do livro, a fome dita o ritmo da vida, Carolina escreve com dimensão angustiante o que é uma pessoa sem ter o que comer durante dias e tendo ainda ao seu lado os filhos famintos.“Quarto de despejo”, hoje não seria bem aceito pelos movimentos sociais e por políticos, não que em seu tempo tenha sido unanimidade, mas hoje certamente seria sumariamente ignorado, o motivo? Carolina não divide o mundo em culpados e inocentes, vitimas ou carrascos, eles podem surgir em qualquer lugar, na favela há todos protagonistas e antagonistas, para ela em muitos casos o pobre é responsável por sua própria miséria.Ao ser questionada se seu livro era comunista, ela responde que é um livro realista, mesmo sabendo da existência de ideias comunistas, Carolina, não utiliza nenhum discurso político partidário - ideológico na sua escrita , pelo contrário, para ela o povo deveria se reunir e bater em todos os políticos.Carolina Maria de Jesus hoje publicaria seu livro, até com mais facilidade que nos anos de 1960, mas certamente seria ignorada. Em um tempo no qual o país foi divido entre o torto e o errado não empunhar bandeira nem de um nem de outro é quase um crime.“Quarto de despejo” seria censurado mesmo publicado, um novo tipo de censura: a cesura da indiferença. De alguma maneira isso acontece hoje com a Carolina, ela é ignorada e praticamente esquecida. Seu livro deveria fazer parte do currículo escolar de escolas publicas e particulares e de todos os cursos superiores, é um livro que coloca o ponto nos “is”, remete uma época de livres pensadores, em que os artistas não pensavam ponto a ponto se o que iriam escrever poderia fechar portas ou não. Carolina não jogava para torcida, escrevia com a convicção de quem era e do que queria independente do preço a ser pago e na favela sofreu muito por isso.Ler “Quarto de despejo” é encontrar com verdades dolorosas, um universo povoado por pobres miseráveis, retirantes famintos, políticos bandidos, disputa de espaço e no meio disso tudo uma escritora memorialista capaz de observar e descrever todo esse universo e nos provar que sensibilidade, talento, violência, paixão, amor, desejo de vencer, perdas e encontros não escolhem lugar para  nascerem, a única coisa que é de berço é nossa condição humana e mais nada , Carolina nos fazer sentir a vida tão dolorida, tão bela.


                         

                                    



Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys

O que Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys têm em comum? Todos são ex-empregados da Rede Globo. O Buarque e o Wyllys se dizem de esquerda, Veloso é...é... Olha quem sabe, porém quem nemnem. Pois bem. Há quem acredite que "gênios" se fazem sozinhos, que eles têm o poder mágico do talento e só isso basta para que tenham reconhecimento e sucesso. Não é. Sem o poder da Rede Globo nunca essas pessoas teriam o alcance que tiveram e duas delas levantariam dúvidas sobre a suposta genialidade atribuída a ambos. Dez entre dez pessoas “super inteligentes” “cabeças”, “imunes a manipulação da mídia golpista” têm no trio citado aqui algo que chamo de esquerdismo cristão. Conheço até pessoas que recusaram participação em programas da Rede Globo, acreditando assim estarem contribuindo, como bem cantou Raul Seixas, “para ao nosso belo quadro social”, mas rezam na cartilha de crias da própria Globo. Jean Wyllys é um pouco mais velho que eu, mas somos da mesma geração, militei anos n…