“O Bom Crioulo”

Se no Brasil chato e niilista de hoje um beijo entre duas mulheres em uma novela quase promove a inquisição das duas atrizes, e se esse fato para muitos brasileiros é um ataque a família, e enquanto se esbraveja contra a novela em igrejas ou redes sociais quadrilhas formadas pelos mais perigosos criminosos do país podem livremente roubar milhões e milhões de todos nós que não causa a mesma revolta, o que pensar de um livro publicado em 1895 que tem em sua narrativa o homossexualismo entre um homem negro e um branco (lembrando que relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo na época do lançamento do livro era mais que um tabu e entre “raças” diferentes era quase inexistente ao menos publicamente), além disso, se o personagem negro fosse ex- escravo, militar da marinha e que se apaixona por um jovem também ligado a marinha e juntos viviam intensa relação amorosa? Imaginou um livro desses sendo adaptado para uma novela de TV 120 anos depois de ter sido escrito?
“O Bom Crioulo” de Adolfo Caminha é considerado por muitos críticos literários como o primeiro romance homossexual do ocidente. Hoje livros com essa temática são comuns, mas não no século XIX, sem meias palavras Adolfo Caminha nos apresenta um painel da sociedade brasileira da época que ele julgava hipócrita, se tivesse vivo nos nossos dias ficaria surpreso em descobri que em certos aspectos o Brasil do século XXI é mais hipócrita que o do seu tempo.
“O Bom Crioulo” narra a história de Amaro, negro, jovem, que foge da escravidão e entra para marinha, Amaro é retratado como grande, forte e mais corajoso que os outros marinheiros por isso ganha o apelido de “O Bom Crioulo”. No navio em que serve, Amaro encontra Aleixo e se apaixona por ele. Aleixo é magro, pequeno, loiro de olhos azuis.
Amaro e Aleixo vivem juntos em uma pensão do Rio de Janeiro, vivem como qualquer casal gay dos nossos dias, no entanto o apetite sexual de Amaro não é sempre bem aceito por Aleixo que passa a reclamar da sua vida para D. Carolina, proprietária da pensão em que vivem.
Seduzido por D. Carolina Aleixo tem um caso com ela, ao descobri que foi traído Amaro deixa de ser o “Bom Crioulo”, seu romance segue por um caminho trágico e sem volta.
Tudo em “O Bom Crioulo” o levaria para lista dos livros censurados ou ignorados desses dias de esquizofrenia conservadora temperado por esquerdismo demente.
Lembrando que recentemente pessoas foram expulsas das forças armadas por assumirem que eram gays, lembrando que não se tem notícias em forças de segurança pública pessoas (em especial militares) que assumam ser gays, lembrando, até hoje pessoas de “raças” diferentes ainda são questionadas quando se envolvem afetivamente, lembrando, até hoje pessoas homossexuais são perseguidas, mortas ou impedidas de trabalhar.
O livro de Adolfo Caminha pode não ser tão lido ou muito lembrado, mas é um clássico. Inovou na temática, abordou questões que mesmo nos dias de hoje são consideradas polêmicas. Os escritores do século XIX têm muito ainda a ensinar aos escritores do Brasil século XXI.
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