Adjetivos

Adicionar legenda
Nenhuma classe gramatical é mais perigosa que o “adjetivo". Não por acaso é usada abundantemente por estelionatários, políticos, religiosos e puxa sacos. Todo mundo gosta de elogios, faz bem, nos recompensa do trabalho feito, alegra o amor compartilhado, nos acalenta o dia, nos traz ânimo para caminharmos mais confiantes de quem somos. Sem adjetivos a vida ficaria acentuadamente cinza.
O problema é quando acreditamos que somos do tamanho que dizem que somos, quando acreditamos que realmente somos imprescindíveis, quando acreditamos realmente que algum coração além do nosso bate por nossa razão e sem nós pararia de bater, que somos insubstituíveis ou geniais ou assumimos riscos porque dizem que somos talentosos e arrojados e nunca seremos derrotados. Adjetivos podem nos prender pela culpa de ser o amor na vida de alguém enquanto em nossas vidas não há amor algum.
Por outro lado quando também acreditamos que somos incompetentes, fracassados, que não nos esforçamos tanto por isso sempre perdemos, quando dizem: "baianos", "paraíbas" e aceitamos passivamente pensando ser isso uma maneira de carinhosa de sermos tratados, mas não passa de racismo e xenofobia, quando dizem que não temos talento algum ou somos problemáticos e internalizamos tudo isso, quando terceirizamos nossas vidas por acreditarmos na necessidade de sempre termos alguém a nos dizer qual melhor caminho a seguir. Nesses casos o adjetivo é usado de maneira direta para nos ferir, para matar o nosso ego, para entregarmos os pontos e acreditarmos realmente que somos culpados de tudo de ruim em nossas vidas.
 O adjetivo qualifica também restringe, o adjetivo pode ser ponte para lugar algum, porta aberta para criminosos em nossas vidas, caminhar lento para o matadouro, sepultura do melhor que somos. Adjetivos potencializam a vaidade, nos tapam os ouvidos, nos fazem crer que venceremos qualquer Golias porque somos sempre merecedores da vitória.
Deve-se elogiar pessoas, realça suas qualidades, dizer o quanto são importantes, ninguém consegue viver ao lado de pessoas que sempre têm punhais nas línguas, mas é preciso ter cuidado nem tudo que reluz é ouro e nem tudo que não reflete luz é ferrugem.

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys