Pular para o conteúdo principal

A lei da terra


Hannah Arendt escreveu: “Quem habita este planeta não é o homem, mas os homens. A pluralidade é a lei da terra”. Se escrevesse nos dias de hoje certamente diria que quem habita este planeta não são apenas os homens, mas mulheres, crianças e todos os seres da natureza, no entanto o que importa é a grandeza do pensamento de Hannah Arendt, a ideia de que só podemos viver aqui por causa de uma lei inquestionável: a pluralidade.
Você pode se sentir especial e esse sentir-se especial colocá-lo pairando na ilusão de que existe você e os outros são apenas os outros, acreditar que sua religião salva enquanto as outras condenam, pode acreditar que a cor da sua pele é linda e as outras cores feias, acreditar realmente em um mundo serviçal das suas vontades. Seja lá no que acredite você só está aqui por causa da pluralidade da natureza.
Para a pluralidade pouco importa a diversidade política ou conceitual de um grupo, para a pluralidade somos todos nós partes de um sistema intricando que existe porque uma sustenta a outra. Você pode achar-se linda, mas para a lei da pluralidade não existe beleza, existe você.
Dia menos dias mudamos de estágio, passamos para a fase “morta” da vida, ao morremos não deixamos de existir enquanto parte da natureza, perdemos a consciência da existência, mas permanecemos aqui nas coisas e em outras formas de vida, quem sabe até nas asas daquela baratinha tão desprezada por nós.
Leia da natureza, pluralidade, não existe morte definitiva, assim como não somos definitivos nesta forma de vida. A criança que fui não existe mais, o adolescente que fui morreu há muitos anos, agora sou eu nesta forma pré-velhice, mas para mim o que importa é a consciência de que minha vida não foi um manifesto de ódio, isso importa tão somente para mim e talvez para algumas pessoas do meu convívio, mas para a lei da natureza pouco importa.
Todo pré-conceito nasce da ignorância de não nos sentirmos parte da natureza, como se fossemos deuses ou protegidos por um deus poderoso que nos escolheu para nos acolher na sua santa e misteriosa bondade, não é verdade. Tudo que somos é isso: parte da natureza, ela é a lei. Você , eu, a criança que sorrir ao teu lado somos partes uns dos outros, quando alguém morrer nós morremos um pouco também, quanto alguém nasce nós renascemos também.
Ninguém foge a lei da terra, a terra ri da nossa imbecil ideia de que somos donos de alguma coisa, nós não somos donos nem de nós mesmos, nosso corpo não é tão nosso como pensamos. É tempo de refletirmos, a grande e única intolerância nossa é com nossa própria espécie e isso vai nos matar com a estupidez de quem se olha e não se enxerga.
   



Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…