Pular para o conteúdo principal

Brasílias

Foto: Ediney Santana
A exposição “Brasília Fora do Plano” de Beatriz Chaves propõe muitas reflexões sobre uma cidade e seus invisíveis muros, invisíveis sim, mas eficientes em segregar e legitimar preconceitos. A ideia de que existe uma cidade chamada Brasília e ao seu redor outras quase cidades chamadas de satélites criaram sobre bases sólidas uma espécie de xenofobia ratificada pelo próprio poder público.
O poético nome de “Cidade Satélite”, não livra os bairros de Brasília da convivência prosaica e tensa com o centro da cidade. Existe a débil ideia de que a violência, falta de educação ou cultura tem berço e esse berço atende em Brasília pelo nome de “Cidade Satélite”, essa ideia reafirma ecos do passado no qual a casa grande era o lugar de nascimento de gente “predestinada” ao brilho, ao “sorriso da sociedade”, por outro lado a senzala o lugar de nascimento de pessoas fadadas à escravidão.
Por mais estranho que pareça a cidade que se orgulha de ter um dos melhores sistemas de ensino do país e uma forte efervescência cultural ainda acredita que o homem é fruto do meio e que existem pessoas aculturadas, ou predestinadas à violência tão somente pelo lugar do seu nascimento.
A ideia da Beatriz Chaves na sua exposição “Brasília fora do Plano” consiste em uma sequências de depoimentos colhidos por moradores da cidade e ligados por delicados fios, podemos ler em cada depoimento coisas inquietantes como: “ Meu pai levou minha mãe para o hospital Santa Lúcia para que eu nascesse no Plano  Piloto, acredita? Mas nós sempre moramos em Taguatinga”. Nesse depoimento problemas cruciais não só de Brasília, mas do país: a negação das nossas raízes, o olhar para o centro como se ele fosse mais importante que as regiões não centrais, a vergonha do lugar em que se vive, falta de identificação com nossa própria história de vida.
Na música “Sampa” Caetano Veloso diz: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Em um depoimento na exposição podemos ler: “No jornal, quando uma menina de Ceilândia vence a Olimpíada de matemática ela é de Brasília. Quando é usuária de drogas é de uma cidade próxima a Brasília. RA, só é Brasília quando é conveniente”. Narciso acha feio o que não é espelho, só admira o que sente como parte de seu, Narciso determina o que é belo ou não, o que deve ser admirado ou negado a beleza de existir ou viver. Quando surgem bolhas no seu braço Narciso pode simplesmente arrancar o próprio braço, mas nunca admitir que existam bolhas nele.
Sou nordestino e como nordestino uma expressão sempre me incomodou: “Sul Maravilha”, como muitos nordestinos chamavam o sul do país, o sul era maravilhoso, e o nordeste o inferno. O maior inferno do nordeste não é e nunca foi a seca, seu maior inferno foi a negação política dele enquanto parte do Brasil e em segundo plano o desprezo social que muitas pessoas nascidas no nordeste em harmonia com o olhar de pessoas não nordestinas sentiam e ainda sentem por ele, tudo isso reafirmou preconceitos e empobreceu a região.
Muitos nordestinos do litoral olham para o sertão do nordeste com o mesmo olhar que muitas pessoas do Plano Piloto olham para as cidades satélites em Brasília, às vezes um olhar de pena, outras tantas de desprezo e até nojo.
Em outro depoimento lemos: “DF escolha, Brasília é sorte”. Brasília não é sorte, Brasília é excludente como todo grande centro urbano é, DF não existe, é uma ficção política. A sociedade não é uma questão de sorte, é tão somente política, a política escolhe em qual lugar vai manter sua reserva de miseráveis sempre sonhadores de “um futuro melhor” e em qual lugar vai manter os que vivem no presente tudo aquilo que para milhões de excluídos é sonho, é futuro.
“Não tente gostar de Brasília tão rápido assim”. Neste depoimento algo inquestionável. Brasília é uma não cidade, um lugar que é possível encontrar todos os lugares, Renato Russo disse que tudo que Brasília tem falta em outras cidades do país, por isso mesmo ao primeiro olhar pode-se não enxergar o que de melhor essa cidade pode nos oferecer.
“Brasília Fora do Plano” foi montada em um quarto branco, entrar nele e nos deparamos com suas linhas e palavras negras, ler cada depoimento e entender a proposta de arte social da Beatriz Chaves nos traz muitas sensações, uma delas é que Brasília vive um dos seus melhores momentos. A ideia de Cidade- Estado sisuda e triste vai perdendo espaço para outra cidade, os muros agora são linhas, linhas que podem ser contadas com uma pequena tesoura chamada aceitação.
A exposição nos chama para uma ideia central: enquanto nos olhamos como estrangeiros ou invasores de determinados espaços o Brasil vai ser sempre esse país equilibrando-se entre o penhasco e algo de bom que parece ser sempre a promessa e futuro. Sou Brasileiro tanto quanto seus olhos nascidos no Plano Piloto, em Taguatinga ou Mundo Novo.







                                                                                                                                                                 

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Jantar e crime

Na delação: “em um jantar acertamos o valor da propina”. Quantos crimes são articulados em mesas fartas e jantares de luxo? Ou melhor, em palácios? É mórbido e tragicamente irônico que pessoas sentam-se em uma mesa cheia de comida para acertar crimes que vão levar à fome e morte tantas outras pessoas. Nos últimos dias, com o avançar da Operação Lava Jato e as delações premiadas, tomamos consciência da naturalidade a qual crimes são articulados, como pessoas sem sentimento algum, roubam e matam com se estivessem apenas trocando ideias entre amigos e parentes sentados em uma mesa. Paralelo a comilança criminosa, esses mesmos agentes do Estado tramam reformas administrativas que vão impactar a vida dessas mesmas pessoas já roubadas por eles. É preciso, sim, diminuir os gastos públicos, mas não se pode sacrificar quem já não tem quase nada. Nossa saúde e segurança pública são máquinas de triturar gente, gente pobre e tempere isso com o absurdo da reforma da previdência que iguala pela pe…