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Valorização da Vida

Desenho de Ediney Santana
Há alguns anos fritado nas minhas próprias paixões e utopias, sem amigos e sem querer dividir com a única pessoa que sempre esteve ao meu lado durante toda minha vida (minha mãe) as angústias dilacerantes que corroíam meu espírito, como Jó, peguei meu caco de telha e sentei em meio às cinzas, mas ao contrário de Jó nunca tive crenças sólidas em religião alguma, apenas fiz do silêncio meu companheiro, vivendo tão somente o necessário para ir trocando de pele durante àquelas horas nebulosas.  
Um dia passou na TV a propaganda do CVV (Centro de Valorização da Viva), prometia que a qualquer hora do dia ou noite haveria alguém para ouvir qualquer pessoa que se sentisse aflita, perdida no labirinto da existência. Então liguei, do outro lado da linha alguém que nunca soube quem era me ouvia pacientemente, liguei muitas outras vezes, falava  sobre as  angústias que voluntariamente colhi para minha vida, sempre era atendido com cordialidade .
O CVV é uma entidade sem fins lucrativos, todas as pessoas que trabalham nela são voluntárias, ficam horas sentadas dias e noites ao lado do telefone esperando alguém ligar, o atendimento prestado por eles parece simples, mas não é.
Relações cada vez mais efêmeras, um mundo no qual as emoções nascem e morrem sem direito a saudade, respeito ou a simples alegria da convivência; escutar alguém não é algo simples, doar seu tempo de vida para um estranho pode aparentemente ser algo simples, mas longe disso, é um gesto de amor, puro e solidário amor.
Quando eu era criança tinha medo de alma penada, mas hoje tenho medo mesmo são de almas encarnadas, de pessoas, o mundo de hoje escolheu livremente o caminho da intolerância, da negação do outro, ridiculamente quanto mais avançamos na ciência e nos debates políticos, mas cascas grossas nos tornamos.
 A dor do outro pouco interessa, dizer para alguém que você sofre pode não ser uma boa ideia: fraco, covarde, sem ânimo, tem tudo na vida e é infeliz, chora de barriga cheia, ta sofrendo porque quer, São algumas das frases que ouvimos por aí metralhando pessoas que estão sofrendo e na maioria das vezes só queriam encontrar alguém que as escutassem.
Há pela internet vídeos e fotos de pessoas com deficiências físicas ou mergulhadas na miséria e apesar da vida difícil que lavam aparentam felicidade, essas pessoas maravilhosas são usadas por gente fria e insensata para humilhar que sofre, esses vídeos e fotos vem com legendas como: para você que reclama da vida, para você que acha bonito ser triste, para você que acha sua vida uma merda.
Parece existir uma psicologia da humilhação, a psicologia do desprezo, da acidez e essa psicologia é facilmente encontrada nas entrelinhas das nossas relações cotidianas.
Há uma canção de Caetano Veloso que diz : cada uma deve saber a dor e a delícia de ser quem é. Aprender a ser só, não se desesperar com acorda da angústia enrolada no pescoço, não culpar pessoa alguma pelos fracassos pessoais e principalmente não esperar ajuda de onde não vêm foram os caminhos que resolvi trilhar desde aquela fase Jó.
Gosto dos gatos, quando eles não se sentem bem nos lugares simplesmente vão embora, não dizem adeus, não machucam ninguém, não ficam olhando para pessoas com olhar triste como se estivessem culpando-as de alguma coisa. A diferença entre  uma pessoa consciente do seu sofrimento pessoal e um chantagista emocional é esse: o chantagista emocional coloca a culpa dos seus fracassos na conta de outra pessoa, quem tem consciência de ser único responsável pelas suas angústias não.
Se você estiver só, procurando alguém para conversar ou simplesmente desabafar deixo aqui o número do CVV: 141




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