Pular para o conteúdo principal

Renato Russo: Diário do Recomeço

“O Poder Superior para mim é o tempo, a vida, o amor, a amizade, o sopro de esperança presente até nos momentos mais difíceis, o mistério que me cerca, uma emoção inexplicável que faz o tempo parar, me faz sentir muito bem e me traz um sorriso aos lábios, minha vontade de crescer e trazer luz para os meus e os outros. Na verdade, para mim, o Poder Superior não se explica por palavras. Sua existência é percebida não pelo intelecto, mas sim pelo coração. É como vente que não se vê, mas vemos as árvores em movimento, ouvimos o som e sentimos o vento no corpo. Só que o vento se explicar, e o Poder Superior não. É importante para mim porque minha vida agora depende disso”. Você acabou de ler um trecho do livro “Só por hoje e para sempre, diário do recomeço” escrito por Renato Russo quando esteve internado durante vinte nove dias do ano de 1993 em uma clínica de reabilitação no Rio de Janeiro.
O livro nos mostra os conflitos entre Renato Manfredini e Renato Russo, no começo Renato Russo parecia ser apenas um pseudônimo de Renato Manfredini, mas depois parece que evoluiu para um heterônimo, neste momento criador e criatura vão viver juntos a dor e delícia de ocuparem o mesmo espaço e não terem mais certeza quando começava um e terminava o outro, certo é que Renato Manfredini lutou bravamente para que um não destruísse o outro, para sintonizar os dois em uma vida tranquila na qual amor nunca rimasse com dor, e mais que uma legião de fãs os dois tivessem paz de espírito.
Ao aceitar ser internado em uma clínica de reabilitação, conviver com pessoas estranhas, acatar ordens e regras Renato Manfredini dizia a si mesmo que deveria aceitar também sua nova condição de mais um na multidão dos que precisam de ajuda, a fama que Renato Russo lhe deu ali não valeria nada, agora ele era como qualquer outro dependente químico em busca de auto-revelação, aceitação, chegava também o momento de pedir desculpas a pessoa que mais maltratou durante anos: ele mesmo.
O autor escreveu seu diário em forma de diálogo, uma longa conversa consigo mesmo e com seu outro eu: Renato Russo, sem auto-piedade nos revela um Renato pouco conhecido, do homem frágil ao agressivo, do auto-suficiente ao que se rende e pede ajuda, do homem que antes dos trinta anos de idade já havia marcado seu nome na história da música, ganhado dinheiro, conquistado fama e respeito ao bêbado solitário em uma sinestesia com poetas românticos.
O Renato do livro parece ter saído de “Noite na Taverna”, livro escrito por Álvares de Azevedo. Renato revela-se uma alma romântica, como aquelas da segunda geração do romantismo (século XVIII), suas dores, muitas das suas composições, atitudes e declarações que podemos ler no diário remetem ao romantismo do “mal- do- século”. Há um diálogo, creio, não intencional, com autores como: Goethe, Casimiro de Abreu, Byron e Fagundes Varela. A sintonia entre Renato e o período literário citado surge a cada página do diário, a cada paixão que o cortava em dor, a cada reação violenta contra o que ele achava errado, a cada nova dor que o mundo lhe colocava sobre as costas.
Mesmo sendo um homem romântico que encarava a vida de maneira apaixonada Renato Manfredini conseguiu, assim como seus pares poetas românticos, manter no texto, em seu trabalho o equilíbrio necessário para que Renato Russo revelasse intensamente todo seu talento, toda sua criatividade, tanto que logo no começo do diário podemos ler a “voz do mal” reconhecendo que não conseguiu devorar a alma e nem o trabalho do Renato.
Renato tinha um projeto literário para si, mesmo na Legião Urbana era claro o cuidado dele com a palavra, aliás, três compositores brasileiros levaram projetos musicais para música e só dois tiveram sucesso nisso: Renato Russo e Belchior, o que não teve sucesso foi Chico Buarque, para unir música e literatura é preciso viver intensamente cada um das duas artes, colocar em cada verso ou nota gotas do próprio sangue, Renato fez isso.
Mais que um relato de alguém em busca de si, tentando superar seus vícios, “Só por hoje e para sempre, diário do recomeço” é um importante documento de como problemas existências e drogas podem jogar ao fundo do poço qualquer pessoa, não importando sua condição social ou econômica, são relatos corajosos de quem cansado de guerras contra si mesmo buscou a paz, terminada a leitura do diário fica a certeza de algo escrito pelo próprio Renato Russo:” buscar informação é o melhor caminho”
http://edineysantana2.blogspot.com
 http://livrosdeedineysantana.blogspot.com 
http://edineysantana.zip.net

Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…