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A quem interessa a morte da afetividade?

A ansiedade pelo novo que envelhece ao nascer nos levou a um estado permanente de intolerância, nada que não nos alimente de constantes novas sensações ou emoções consegue nossa atenção e essa atenção dura pouco mais que alguns minutos, a comoção de agora será esquecida no instante seguinte ao ser dramaticamente sentida por corações viciados em novidades, nada prende atenção para além de infindáveis cinco minutos, tudo nasce desbotado, gasto, para morrer mesmo antes de saber-se existente em nossos sentimentos.
O resultado disso, além da intolerância com o que requer mais atenção é um mundo de superficialidade, um mundo no qual a lógica é a valorização de tudo que seja breve e que esgotou em si qualquer possibilidade de múltiplas leituras, tudo deve ser óbvio, rasteiro e de fácil entendimento.
Sem memória afetiva, cultural ou política passamos a viver em um mundo sem que tenhamos o controle sobre nada do que somos, como se estivéssemos em um fábrica de produção em massa de andróides fabricados para consumir, andróides sem paladar ou capacidade de decisão sobre o que realmente é importante ou não, nossos desejos não são mais nossos, desejamos o que somos adestrados para desejar, quanto menos memória, mas serviçais da política e consumo nos tornamos.
Vestimos o que vai ser descartado amanhã, somos a frívola semente do vazio, o vazio é o que resta quando nos tornamos seres incapazes de reflexão para além da prisão midiática das empresas de comunicação ou propaganda.
Nossa falta de memória afetiva serve como escada para lucro de alguns e poder para outros, se não nos debruçamos em questões mais sérias que exija reflexão é um sinal que estamos morrendo socialmente, nos entregamos a futilidade da vida, confundimos leveza com mediocridade.
Intolerância é a miopia dos que querem um mundo raso, dos que justificam o mal pelo mal, não se sentem constrangidos em alimentar o mal com fome da impunidade, não questionam o mal em si, querem apenas que seu mal não seja confrontado pela justiça.
Eu acredito na nossa capacidade de reação, na nossa capacidade de enfrentar a negação da afetividade, de reagir ao fim da memória, eu acredito no gênero humano, não seremos vencidos por empresas ou organizações políticas que tem por finalidade controlar nossas emoções. Refletir antes de agir é o melhor caminho.




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