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Pequeno Príncipe

“O Pequeno Príncipe”, livro escrito por Antoine de Saint-Exupéry, é uma espécie de livro lenda, algo que passou ao imaginário popular e até mesmo quem não leu pensa que leu. Poucas páginas, algumas aquarelas, texto simples e suave, mas que contem uma mensagem poderosa e arrebatadora.
Muitos autores que escrevem para crianças ou para adolescentes geralmente cometem dois pecados literários. Primeiro: criar textos não infantis, mas infantilizadores, débeis que não levam em conta a capacidade cognitiva das crianças ou adolescentes e o segundo pecado é criar personagens infantis, mas com maturidade psicológica de adultos, quando não raro, transferem para os personagens seus próprios preconceitos e moralismo, muitos personagens infantis se perdem porque são avatares dos seus criadores.
Não é fácil criar personagens, dotar um personagem de personalidade própria. Algumas vezes ao lermos um livro e ouvirmos seus autores temos a impressão que não é bem um romance que lemos, mas crônicas com a visão do autor sobre determinado assunto, mas também acontece do leitor não conseguir separar o autor de sua obra. Há alguns anos publiquei um romance chamado “Urbem Angeli”, as poucas pessoas que leram geralmente falavam assim: “você aqui pegou pesado, não deveria ter dito isso”. Eu tinha que explicar que não disse nada, quem disse foi um personagem.
Os poetas sofrem coisas piores, por conta do fracasso quase que generalizado do ensino de literatura nas escolas, poetas passaram ao imaginário popular como seres ora “frágeis” ora  “sonhadores” e o pior, a poesia virou sinônimo do “belo”, “delicado”, quando na verdade poetas e poemas pode, ser tudo, podem representar tanto o belo quanto o grotesco. Infelizmente ainda há ecos do romantismo no imaginário coletivo sobre artes e afins.
Poetas ainda padecem mais que romancistas. Milhares de poetas contemporâneos, mesmo tendo sido publicados 500 mil livros de poemas em 2014 no país, nas escolas brasileiras é quase impossível encontrar um só professor que trabalhe poetas contemporâneos.  O MEC e MIC com suas bizarrices burocráticas, encarcerados por grandes editoras ajudam a enterrar sem cerimônia a cultura nacional ao ignorar sumariamente quase que toda produção poética contemporânea  do país.
 Em “O Pequeno Príncipe”, os personagens foram criados na medida certa, não são idiotizados ou se parecem com filósofos de boteco falando asneiras dignas de alguns doutorados que encontramos por aí, o interlocutor do garoto é um aviador, talvez seja o alterego de Antoine de Saint-Exupéry, ele nos conduz pela narrativa, mas sem sobrepor o garoto.
Muitos assuntos delicados são tratados no livro, do alcoolismo ao materialismo, suicídio, desencanto, medo, solidão, egoísmo enfim quase todas as emoções nossas cotidianas estão naquelas páginas, tudo de maneira tão delicada e simples que muitas pessoas confundem simplicidade com futilidade e tecem criticas amargas ao livro infantil mais vendido no mundo.  
Um livro gracioso que todo livro infantil gostaria de ter sido, até os que ainda não foram escritos.





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