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Uma vela para deus e outra para o diabo

Em algum lugar neste país há um altar no qual sem vergonha alguma se pode acender uma vela para deus e outra para o diabo. É um lugar sem muito mistério, calmo como uma capela renascentista, dúbio como uma prece barroca, neste lugar santo ou demonizado não se olha diretamente nos olhos, cada uma tem sobre os olhos algo que sugere um “sim, não, porém nem sempre, talvez”, neste lugar sim pode significar não, não pode significar qualquer coisa menos um não definitivo, nada é definido. As portas desse lugar são estreitas, no entanto isso não impede que milhões se apertem para entrar na grande capela do vale tudo, em nome de deus ou do diabo amém.
Neste lugar no qual mal e bem são louvados com entusiasmo. Lado a lado convivem pessoas ilustres e meros desconhecidos, grandes personalidades e idiotas, gente que jura amor pela pessoa objeto do seu sentimentalismo vadio e ao anoitece o envenena ,vai ao enterro, chora, faz discurso e rouba as coras de flores do falecido.
O escritor que nunca entrou em um hospital público, o cantor que nunca subiu uma favela, o cientista político, o especialista em tudo, todos eles juram que determinada pessoa é boa e outra má , mas essa jura vai depender de qual dos dois lados responder primeiro suas preces, se deus ou o diabo, não importa, o que importa é que os pedidos sejam atendidos.
Pense comigo, se toda energia gasta em defender partidos, políticos, se toda energia gasta em campanhas milionárias fossem voltada para o país, para a intolerância máxima com o crime de toda espécie, contra a farra das regalias pagas com nosso dinheiro, se toda essa energia fosse usada para mudarmos radicalmente nosso código penal, jurídico, eleitoral e trabalhista, se toda essa energia fosse usada para uma reforma tributaria justa como seriam nossas vidas neste país?
Nada muda porque mudanças causariam o fim do altar de uma vela para deus e outra para o diabo, a desorganização do Estado, a canalhice jurídica feita por deputados e senadores responsáveis por criação de lei favorece a dubiedade da alma brasileira, alguém sempre ganha com tudo de ruim  que acontece no país.
A desgraça de um é o riso do outro, a dor de alguns é a alegria de outros, dos nossos cadáveres muitos se alimentam. É preciso medo, esperança e dor para que um povo sinta-se contente com migalhas, para que outros tantos sejam os donos dessas migalhas oferecidas como presentes divinos.
Definitivamente a vida não entra na ordem do dia, na ordem do dia a negociata, a falta de compaixão, a estúpida ideia de que “se eu estiver bem foda-se os outros”. No altar promíscuo dos corações dúbios nunca faltam velas para deus e diabo.




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