“O último a sair apaga a luz do aeroporto”*

Durante a ditadura militar não tivemos no Brasil canções de protesto, mas de fuga, embora muitas dessas canções tivessem beleza poética, eram canções medrosas, de fuga. Geraldo Vandré escreveu em “Para não dizer que não falei das flores”: “Vem vamos embora/ espera não é saber/ quem sabe fazer a hora/ não espera acontecer”. Em “Canção da despedida” Geraldo Vandré e Geraldo Azevedo escreveram uma das mais belas canções de fuga e não menos alienada da nossa música popular: “Já vou embora/ mas sei que vou voltar/ amor não chora/ se eu volto é prá ficar”.
Chico Buarque também foi autor de canções de fuga, em “Apesar de você” ele canta: “ Apesar de você amanhã há de ser outro dia”, pura fuga e não de enfrentamento. Chico Buarque também escreveu com Gilberto Gil a bela “Cálice”: Pai! Afasta de mim esse cálice / Pai! Afasta de mim esse cálice / Pai! Afasta de mim esse cálice / De vinho tinto de sangue”. Aqui os autores da canção transferem para outra pessoa (o Pai) a responsabilidade de mudar a realidade que se encontram.
Caetano Veloso influenciado por movimentos contraculturais franceses da década de 1960 escreveu a canção que o lançou para o estrelato: “Alegria Alegria”, canção de fuga, a música como todas as outras canções desse mesmo período passa a ideia de fuga, de buscar outro lugar, discurso alienado que enxergava em outro país a possibilidade de felicidade que no Brasil acreditavam não ser possível diante a conjuntura política, não fizeram enfrentamento, optaram pela fuga.
Taiguara também escreveu sua canção de fuga, em “Que as crianças cantem livres”, ele escreveu: “E que as crianças cantem livres sobre os muros / E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor / E que o passado abra os presentes pro futuro / Que não dormiu e preparou o amanhecer”, notou o tom de fuga? De negação de realidade e busca pelo futuro? Nada de enfrentamento, nada de gritar diretamente ao estado opresso o quanto ele era maléfico.
O interessante é que no mesmo período no qual essas canções foram escritas o pessoal da Jovem Guarda ou da chamada música brega eram chamados de alienados. Se a Jovem Guarda ou os ditos cantores bregas escreviam canções inocentes, puíreis e isso era ser alienado o que dizer dos compositores da chamada “linha evolutiva da música popular brasileira” e suas canções de fuga?
Não se deve esquecer, a cesura era de burrice extrema, censurava qualquer coisa que não entendesse ou julgasse perigosa, não por acaso compositores “bregas” e da “elite” da MPB foram todos censurados e perseguidos, cantores como Amado Batista, por exemplo, foi preso pelos militares.
As canções citadas por mim aqui tem todas um clichê que as unem, esse clichê é a ideia de fuga, a metáfora do adeus, o abandonar o país, a não coragem de enfrentar a realidade. Em qualquer canção desse período vamos encontrar esses elementos, no entanto isso não diminui a beleza, a poeticidade a o valor histórico de cada uma delas.
Foi no rock da década de 1980 que sugiram canções reais de protesto, músicas como “Bichos Escrotos” dos Titãs, “ Que país é esse!” da Legião Urbana, “ Inútil” do Ultraje a Rigor, “ Revoluções por minutos” do RPM, “Brasil” de Cazuza, “ Alagados” do Paralamas entre outras do mesmo período inauguraram no país a vertente das canções de protesto, uma das canções mais emblemática desse período é “Notícias do Leste” da banda Uns e Outros, a canção celebra a queda do Muro de Berlin e o fim do comunismo, bela canção que antecipava também o fim  da utopia da esquerda representada pelo PT, que anos depois jogaria não um muro ao chão, mas um país inteiro.
Não há protesto se não há enfrentamento direto, não há protesto se não se diz claramente ao inimigo o que ele merece ouvir, metáfora é recuso poético e não de anonimato por medo ou alienação .
A frase que nomeia essa crônica reflete bem o espírito de muitos intelectuais brasileiros na época da ditadura: “O último a sair apaga a luz do aeroporto” reforça o espírito de fuga, não menos diferente de hoje em que muitos brasileiros desejam ir embora. O Brasil talvez seja o único país no mundo no qual ninguém nunca chegou e todos querem ir embora, é como se fossemos todos escravos forçados a viver aqui, ou exploradores ávidos por roubar, pilhar e levar para outros países nossas riquezas, o Brasil talvez seja o único país no mundo no qual muitos dos seus cidadãos e cidadãs sintam vergonha de dizer que o ama e repreende quem o diz.
A Música popular pode nos fazer refletir muito sobre o que afinal é o Brasil, afinal eu quero ficar aqui, mesmo que o rei seja mal coroado, mesmo que mande garrafas para náufragos de outros mares.  

   

            

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