O invisível

Foto: Ediney Santana
O invisível sofre de uma única doença, o invisível tem medo angustiante que alguém o enxergue, pois não sabe o que lhe pode acontecer se alguém o reconhecer, reconhecer o invisível pode revelar as misérias de quem não é invisível.
Todo invisível tem duas fases: a primeira é o susto ao descobri que se é invisível, a segunda é acostumar-se com a invisibilidade e passar a ter medo de gente como gente tem de alma penada.
O invisível tem história, alguém chorou de alegria quando ele nasceu, o invisível nunca quis ser o que é, quando deu por si, ou não si, já estava deitado na sarjeta da invisibilidade, o invisível já não chora, ri ou tem qualquer emoção, seu corpo cansado fez das ruas seu lugar no mundo.
O invisível revela a tragédia nossa de cada dia, é gente, mas é também como se não fosse, no cemitério o invisível descansa na ala dos indigentes, apenas um número e talvez uma cruz feita de tábuas podres estejam sobre sua cova tão desoladora quanto foi sua vida.
O invisível vaga a esmo pelas ruas, cabeça baixa, quase não fala, não tem prazer, a vida é sem razão ou emoção, não pensa em deus ou diabo, para invisível o tempo não se divide em dias ou noites, não há horas, passado ou presente tão pouco futuro.
O invisível é o nosso sobejo, nossos detritos sociais, o invisível é nosso delírio de superioridade, é a porta na entrada do escritório, é a sobra e seus jornais no parque.
O invisível embora seja gente é também coisa, o invisível pensa pelo estômago, nada quer além de algo que lhe acalme o estômago, não sente sabor, não escolhe o que comer, a lata de lixo é seu purgatório sem possibilidade de céu.
O invisível não morre, porque ele não é um indivíduo, é um gênero. Às vezes olha para o céu e se questiona se existe mesmo um deus, e que deus seria tão cretino para permitir tanta invisibilidade, o invisível já não sente dores, angústia, ele apenas caminha, suas mãos tremulas  estão sempre  a dizer adeus, adeus de quem nunca chegou de fato.
      


    

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys