“Ultra aequinotialem non peccavi”

BarlaeusMatham
A frase de Gaspar Barléu: “Como se a linha que divide os hemisférios separasse também a virtude do vício" mostrava o olhar do colonizador sobre os povos que aqui viviam antes  dos europeus trazerem água benta, rei , lei e tantos outros pecados que como um sopro da morte quase exterminava todos os antigos moradores do tal novo mundo. “Ultra aequinotialem non peccavi”, (Não existe pecado ao sul do Equador) essa frase sintetizava o pensamento de Barléu, era uma espécie de dito popular, para o nosso azar nos persegue até hoje. Chico Buarque ao encontrar a frase em um livro do seu pai “Raízes do Brasil” a ousou para compor em parceria com Rui Guerra, a famosa canção sacralizada na voz de Ney Matogrosso.
A ideia que por aqui tudo se pode a revelia da leia e da ordem é uma das nossas mais amargas tragédias sociais. Não pense em coisas grandiosas como “Operação Lava Jato” ou igreja evangélica sendo usada para lavar dinheiro sujo do suor, sangue e petróleo nosso de cada dia, tão pouco de filho de ex-presidente que ficou rico contando nuvens em dias de tempestade, nada disso, pense em pecados simples (viu o que escrevei? “Pecados simples”, como se pecado não fosse pecado ou existisse o pecadinho e o pecadão. Ninguém escapa ao sul do Equador.
Pois bem, vamos aos pecados simples: estacionar na faixa de pedestres, vagas reservadas para idosos, deficientes físicos, ouvir som alto e infernizar os vizinhos, humilhar professores, jogar lixo na rua, dirigir bêbado, se dizer da paz, mas apoiar atos bárbaros como chacinas de supostos criminosos, apoiar ações violentas da polícia, vota em políticos criminosos, dirige em alta velocidade, se faz de juiz e julga qualquer pessoa baseado apenas em suspeitas ou nos próprio preconceitos, se diz cristão, mas odeia negros, nordestinos e gay, se diz defensor da diversidade, mas nega o direito ao contraditório, ficou horrorizado com as agressões ao ex- senador Eduardo Suplicy e se diz feminista, mas apoiou as agressões à escritora Yaoni Sánchez, reclama de políticos ladrões, mas sonega impostos , se diz a favor da igualdade e solidariedade, mas nunca deu um bom dia ao porteiro do prédio no qual vive.
Prega a tolerância religiosa, no entanto chama evangélicos de fundamentalistas, não responde nunca a quem lhe deseja “bom dia”, separa as pessoas por categorias sociais, como se não fossemos todos gente, quer ser visto e notado, mas prática invisibilidade social, só enxergar quem lhe for conveniente, paga para alguém fazer o trabalho de conclusão de curso, é professor, mas falta aulas e mais aulas, é policial, mas trata qualquer cidadão ou cidadã sempre com rispidez, tem doutorado e alma de chumbo, intolerante, prepotente, arrogante, se diz amante da democracia, mas usa seu dinheiro para chicotear, humilhar e fazer todas suas vontades, mesmo que isso machuque as pessoas, julga pela aparência, recebe de braços abertos qualquer estrangeiro desde que não sejam africanos ou haitianos, diz combater o racismo, mas não suporta brancos, chama de “negros da elite” pessoas vitimas de racismo se essas forem famosas ou ricas.Se diz estudioso, porém até hoje não aprendeu o real significado  da palavra elite.
 Escrevi tudo isso porque li uma matéria que mostrava como brasileiros nos Estados Unidos ficavam “civilizados”. A matéria mostrava como brasileiros lá se tornavam pessoas boas e gentis, incapazes de julgar alguém pela cor ou região do país, pediam “com licença”, respondiam com cordial sorriso “bom dia, boa tarde, boa noite”, brasileiros incapazes de jogar lixo na rua, de falar alto, de ligar o som  alto do carro, brasileiro que aqui odeiam esses camelôs que vendem bugigangas aos turistas, nos Estados Unidos tirando fotos e sorrindo com camelôs, cumprimentando aos porteiros dos prédios e restaurantes, nos Estados Unidos brasileiros obedecendo ao limite de velocidade das ruas e estradas, não estacionam na faixa de pedestres, não sonegam impostos, brasileiros que foram para lá ilegalmente, aceitam trabalhar como sub-escravos e não reclamam, os mesmos que aqui não levantam do sofá para beber um copo d’água, nos Estados Unidos brasileiros que aqui são racistas cantam louros ao presidente Obama, machista dizem que vão votar na Hillary Clinton. A matéria mostrou o comportamento desses brasileiros nos Estados Unidos e aqui no Brasil, tudo por essa perspectiva fica ainda mais desolador.
Esses brasileiros são os mesmos que quando estão no Brasil cantam: “não existe pecado ao sul do Equador”, cometem todo tipo de pecado e como bons covardes que são, colocam a culpa em Lula, Dilma, FHC, enfim, nos políticos. Os brasileiros de lá, se unem aos muitos daqui e juntos continuam o ritual macabro iniciado ainda na época da colonização de destruição desse lugar, depois se terceiriza a culpa. Deus salve a América, toda América e não só a inventada pelo cinema e a odiada por muitos brasileiros.
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