Pular para o conteúdo principal

David Bowie

O olhar melancólico sobre nós mesmos, quando não de nojo. Ontem morreu David Bowie, artista relevante para música e de indiscutível talento, muitas foram as homenagens e notas de pesar pelo mundo (ao menos no mundo europeu, “americano” e claro aqui pela nossa América do Sul que o mundo não reconhece como parte da outra América e tão pouco ela também nos reconhece. David Bowie merece todas celebrações, fez por merecer, era de fato um cara precioso, não é preciso nem falar inglês para se deixar emocionar pelas suas canções, é como se o inglês tivesse o poder de se fazer entender até pelos analfabetos na língua Elton John. Eu gosto de inúmeros artistas estrangeiros, incontáveis escritores, mas me causa cisma o isolamento da nossa cultura, é como se para o mundo o Brasil fosse apenas um país de mulheres nuas nas praias e um povo que se faz escravo por vontade própria ao manter no poder por sucessivas gerações um bando de bandidos.
Nenhum artista brasileiro por mais talentoso que seja, por mais emblemático que seja para a história da música é festejado fora do Brasil como aqui festejamos cantores ingleses, franceses, “americanos” ou jamaicanos.
Muitos creditam isso ao fato de falarmos português, o que é mentira. Por trás da comoção e sucesso que um David Bowie fez e causa há uma poderosa indústria do entretenimento, essa indústria com seu poder consegue fazer com que ao nos olharmos no espelho vejamos sempre pessoas feias, derrotadas e que para nos encaixarmos no mundo globalizado é preciso cultuar, plagiar, ficarmos próximo de alguma maneira ao modelo criado por eles.
Nem nossas universidades escapam disso, todo e qualquer aluno sabe que nos cursos universitários não se incentiva o pensamento, mas a repetição do pensamento dos intelectuais de sempre, os marxs e os foucaults da vida estão sempre lá. Nas nossas universidades além de doutorado em soberba e presunção é preciso ser doutorado na demência avestruz de consumir tudo que seja moda intelectual nas universidades da Europa ou Estados Unidos, mesmo que essa “moda” tenha 200 anos, não por acaso falar inglês é senha mor para entrar nos cursos de pós-graduação, mesmo que o aluno não saiba a diferença entre um verbo e pronome em português. Mas que adianta saber se as citações serão mais importantes do que sua voz pessoal em qualquer tese?Não podemos nos abrirmos ao mundo ao mesmo tempo que nos fechamos para nós.
Não há problema algum gostar de um David Bowie, eu gosto, nós gostamos, mas o problema começa quando acredita-se que só o que não faz parte de nós é importante, quando jogamos no lixo ou tratamos em escala menor nossos artistas, quando caímos na armadilha de confundir a tragédia do Estado brasileiro com o sentimento de povo e nação.
Compram-se livros de Confúcio, transformado em autoajuda, na mesma proporção que se joga no lixo Paulo Coelho, a vida toda se olha para Mona Lisa como se fosse a única obra de arte produzida pela humanidade, mas um Romero Brito é jogado na lata do lixo.
Lotam-se cinemas para cultuar um Star Wars com seu figurino cafona, mas desdenha-se do cinema nacional que para sobreviver aterrou-se em infames comédias e excessiva violência.
Gosto da cultura pop, gosto de rock, mas não confundo grandezas, não é o português nossa ilha, o que nos impede de vencer um prêmio Nobel em literatura não é falta de talento e sim o tosco e perigoso jogo de poder, política e interesse da indústria do entretenimento que infelizmente conquistou no Brasil corações e mentes, sabe o quanto por aqui sentir-se feio é esporte nacional.




  




Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys

O que Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys têm em comum? Todos são ex-empregados da Rede Globo. O Buarque e o Wyllys se dizem de esquerda, Veloso é...é... Olha quem sabe, porém quem nemnem. Pois bem. Há quem acredite que "gênios" se fazem sozinhos, que eles têm o poder mágico do talento e só isso basta para que tenham reconhecimento e sucesso. Não é. Sem o poder da Rede Globo nunca essas pessoas teriam o alcance que tiveram e duas delas levantariam dúvidas sobre a suposta genialidade atribuída a ambos. Dez entre dez pessoas “super inteligentes” “cabeças”, “imunes a manipulação da mídia golpista” têm no trio citado aqui algo que chamo de esquerdismo cristão. Conheço até pessoas que recusaram participação em programas da Rede Globo, acreditando assim estarem contribuindo, como bem cantou Raul Seixas, “para ao nosso belo quadro social”, mas rezam na cartilha de crias da própria Globo. Jean Wyllys é um pouco mais velho que eu, mas somos da mesma geração, militei anos n…