Ana Cristina Cesar: A teus pés

“Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.” Essas palavras são de Albert Camus e fazem parte do seu livro “O Mito de Sísifo”. O suicídio é uma ação perturbadora, alguém que comete assassínio de si mesmo e para Camus é esse o único problema filosófico sério, a vida vale a pena ser vivida? Muitas pessoas por inúmero motivos desistem de viver e foi esse o caso da poeta Ana Cristina Cesar que se matou aos 31 anos em 1983 no Rio de Janeiro.
Ana Cristina Cesar viveu intensamente as aflições e alegrias da sua geração. A década de 1970 foi uma grande ressaca amarga, país vigiado, arte oficial dominando a cena e gigantesca vontade de liberdade. A geração litígio com o sistema a qual Ana C. fazia parte queria segurar as rédea da vida pelas próprias mãos e foi com fé em cada verso de cada dia que escreveram e fizeram história.
Ana C. era intensa e mergulhou sem medo no sentimento de mundo que a dominava, deu ao comum o traço do único, do surpreendente, olhar não vulgar sobre o óbvio. Entendia que falar de coisas simples e comuns não era o mesmo que fazer retratos de paisagens tal como são, seus olhos poéticos eram como jardins pintados por Monet, com uma diferença, eram jardins em chamas. 
Ana C. foi era leitora voraz, poeta que lia, parece estranho dizer isso, mas há muitos poetas que não são leitores nem de placas de ônibus e é aí que toda diferença se faz, quem ler pode não se tornar um grande poeta, mas certamente vai trazer ao seu verso a dignidade poética que todo grande poeta tem.
“A teus pés” foi único livro lançado por Ana Cristina Cesar, saiu em 1982, antes dele Ana divulgava seus versos, como quase todos de sua geração, de mão em mão ou mimeografados. Não havia naquele tempo o que hoje faz a festa de poetas e tantos outros que se dedicam a literatura: as editoras que publicam pequenas tiragens. Essas pequenas tiragens que renovam a literatura nacional, na época da Ana, era o sonho de quem queria dizer ao Brasil imerso na ditadura militar que havia uma geração viva, produzindo e reconstruindo as pontes para um Brasil de múltiplas histórias e perspectivas artísticas e culturais. 
Você não sabe que é bom no que faz até que muitas pessoas digam isso para você, claro, você pode ter toda convicção do mundo que seu trabalho é bom, mas só sua convicção não faz seu trabalho ganhar sentido para além de você, quem escreve escreve para ser lido, além disso, seu reconhecimento não depende tão somente do seu talento, há muitos fatores que podem fazer alguém se reconhecido ou viver e morrer na obscuridade. 
Fato é: em uma geração destaca-se quem tem sorte ou talento, nem sempre quem tem sorte tem talento e quem tem talento nem sempre tem sorte, o reconhecimento depende de muitos fatores quase todos alheios a quem busca ser reconhecido. Ana Cristina Cesar tinha talento, estava no lugar certo e a seu favor muitas condições sociais e culturais, dificilmente passaria invisível pela literatura brasileira, mesmo que não tivesse talento teria alguma visibilidade.
Talento é sempre está passos a frente da sua própria geração, Ana Cistina Cesar ficou a frente, não no sentido clichê (o que eu não acredito) dos “reformadores” do mundo, ficou a frente porque era inquieta, só o que vivia não bastava, queria mais, queria outras possibilidades poéticas, não queria esgotar-se na sua geração, tudo nascia e morria rapidamente para ela, era preciso se alimentar sempre de novas paixões e desafios. 
Quem acredita que chegou a algum lugar morreu intelectualmente, não acredito que alguém nasça à frente do seu tempo, pode-se viver anacronicamente, mas não a frente do próprio tempo, temos essa impressão de algumas pessoas porque elas conseguem enxergar que muitos costumes , crenças ou valores já não correspondem ao tempo que vivem e desafiam todas essas crenças caducas . Ana C. não aceitava chegar a lugar algum, tinha sede, queria bebe de muitas fontes, queria experimentar e curiosamente esse desejo desenfreado pela vida a levou ao suicido.
Toda paixão de Ana Cristina Cesar pela poesia, pela vida, pela palavra podemos ler em “A teus pés”, livro síntese de uma geração, mas que não se esgota nesta síntese, livro marginal e marginal que se preza não tem ponto de chegada, não se define, não se fossiliza em conceito algum, marginal que se preza recusa-se a morte como rito para outro estágio de vida, marginal que se preza continua a nos desafiar a rompermos com o passado em que vivemos.
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