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O artesanato das palavras*

O artesanato das palavras. Em “Outras Palavras” Caetano Veloso mergulhou em três movimentos literários: Modernismo, Concretismo e Dadaísmo para escrever uma das suas mais celebres e vertiginosas canções. Como um artesão Caetano vai tecendo, ligando palavras na busca de mostrar que ele é quando já não é e diz quando não quer mais dizer.
O Dadaísmo foi certamente o mais radical movimento artístico do século passado, Tristan Tzara um dos arquitetos do Dadaísmo acreditava que a arte não poderia explicar o ser humano, por isso o Dadaísmo investia contra a arte “racional”, o “planejamento artístico”, por outro lado acreditava que a arte estava em tudo, e que a arte feita pelo ser humano era uma espécie de representação errada do próprio ser humano. Tristan Tzara escreveu: (...). Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem pró nem contra e não explico por que odeio o bom-senso”. Percebeu? Esse é um dos pontos de partida para Caetano escrever “Outras palavras”: 

“Para afins, gatins, alfa-luz, sexonhei la guerra-paz

Ouraxé, palávoras, driz, okê, crisexpacial

Projeitinho, imanso, ciumortevida, vidavid

Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun

Homenina nel paraís de felicidadania”



Caetano Veloso sempre flertou com o Concretismo. O Concretismo é a busca pela abstração da arte, a arte que se desconstrói para criar sentido. Araçá Azul, é um disco de Caetano no qual ele tenta escrever seu manifesto sonoro concretista, tenta desconstruir a própria música e criar a anti- música, não por acaso até hoje é o disco de Caetano mais intrigante e também mais mal falado, não porque seja ruim, mas porque avança para a radicalização, quebra padrões, é uma estética dura para ouvidos acostumados a música convencional. 
Em “Outras Palavras” Caetano é influenciado por poetas concretistas e nos oferece construções como essa:

“Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor

Tudo, meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol

Na televisão, na palavra, no átimo, no chão

Quero essa mulher solamente pra mim, mas muito mais

Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo”

Todo texto de “Outras Palavras” é costurado por ideias modernistas. Caetano Veloso é fruto direito, ao menos como letrista, dos poetas modernos da geração de 1922. O Tropicalismo liderado por Caetano é a releitura dessa geração com elementos da contracultura da sua geração 1960. “Outras Palavras” é uma letra extremamente criativa, cerebral, une inspiração com estudo, nos revela um autor capaz de recriar, criar e nos oferecer inquietações, as outras palavras de Caetano Veloso nos diz da necessidade de também buscarmos outras nossas palavras.
http://poesiaeguerra.blogspot.com.br
* Dedico esse texto ao meu amigo e músico Adriano Pedro que me presenteou com o cd “Outras Palavras de Caetano Veloso”





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