Os Escravos

O livro que não foi lido. Publicado em 1883, doze anos depois da morte do seu autor, “Os Escravos” de Castro Alves é um longo manifesto político-poético que além de denunciar as mazelas da escravidão ataca de maneira contundente os poderosos do seu tempo. A poesia social e erótica são duas linhas poéticas que desafiam qualquer autor por flertarem perigosamente com o óbvio, não raro ao lermos poesias com teor social temos a impressão de ouvirmos discursos políticos que ao fim grita-se: volte em mim.
Não há poesia sem lirismo, é da natureza poética a voz lírica, sem isso pode-se ter poema, a forma, mas não poesia, por isso mesmo que a poesia não se manifesta apenas na forma de poema, um texto em prosa pode ser construído todo poeticamente, mas quando se pretende fazer poesia e não se consegue levar ao óbvio o traço lírico, tem apenas um discurso prosaico.
Castro Alves flertou perigosamente com o prosaico nas suas poesias, flertou, mas não caiu na armadilha de fazer uma poesia que lembrasse apenas notícias de jornal ou retrato fiel de uma época, se assim fizesse seus versos estariam presos em um tempo espaço determinado.
Castro Alves domina com perfeição o uso de figuras de linguagem e retórica, tudo isso com conhecimento de história e mitologia e claro muito talento, ao somar tudo isso com seu espírito inquieto e vanguardista forjou uma poesia única.
“Os Escravos” poderia ter apenas valor histórico, mas vai além disso, é grande porque seu autor além de contar em versos as misérias da escravidão apontou de maneira única seus ideólogos, é grande porque Castro Alves foi um leitor voraz e é lendo que se aprende, aprendeu com os grandes poetas o ritmo dos versos a importância do lirismo para poesia. Tenho a impressão que “Os Escravos” nunca foi lido em sua plenitude, sempre se pegam a parte no qual o autor expões os dramas dos cativos, mas nunca ou quase nunca quando ele coloca contra parede os poderosos do seu tempo, isso tem razão de ser, razão covarde, conveniente.
Em um Brasil no qual artistas de hoje fazem da arte apenas manifesto político para suas questões pessoas e não sociais, ler Castro Alves é nos reencontrar aquele sentimento perdido de que este país é grande e aqui se incentivando tantos outros Castro Alves ainda vão nascer.

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