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Meu pai

Meu pai acreditava em Deus, mas não era religioso, creio que só entrou em igrejas quatro vezes: quando casou, quando me batizou e quando batizou meus dois irmãos. De Deus só ouvi uma vez ele falar, um dia quando assistíamos ao sou da Xuxa e ela cantou uma canção que se referia a Deus como o “cara lá de cima”, meu pai não gostou, fez um comentário reprovando a “falta de respeito” com Deus.
Não sei por qual motivo me meti com política, foi o maior atraso de minha vida. Lá em casa política não fazia parte da nossa “tradição”. Lembro-me de apenas duas vezes meu pai falar de política, uma quando viu o General Figueiredo na TV e disse: “esse homem está acabando com tudo, o custo de vida está muito alto”. Não entendi o que era “custo de vida”. Outra vez foi quando vimos na TV uma matéria falando dos médicos e seus salários inferiores aos dos garis, comentei que os garis eram quem ganhavam pouco, meu pai respondeu com uma “pedrada”: “Você tá parecendo aquele povo comunista, reclama de tudo”. “Pedrada” porque lá pelos meu dez ou nove anos de idade não sabia o que diabos ou santidade era o tal povo comunista.
Um dia Ulisses Guimarães foi a Santo Amaro, estava com meu pai na nossa banquinha de doces na Pracinha 14 de junho quando o carro com Dr. Ulisses passou, meu pai comentou: “os cabelos dele estão todos branquinhos”. Poucos cabelos é bem verdade, à noite, não sei como, fui ao comício de Dr: Ulisses na Praça da Purificação.
A melhor lembrança de meu pai foi o dia que sentamos nas escadarias da estação ferroviária na Pracinha 14 de junho, conversamos muito, talvez, aquela conversa tenha sido a única entre pai e filho com começo, meio e fim, o filho estava entrando na adolescência, se tornando adulto. Naquela tarde contei meus planos de futuro para meu pai, disse que queria ir para o exército, mostrou-se contente com meu sonho militarista, não viveu muito para saber que nem o Tiro de Guerra servir, fui dispensado por “excesso de contingente”.
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