Franciele Fernanda

Uma cantora de catorze anos chamada Franciele Fernanda participou do programa The Voice Kids, não foi apenas uma participação, foi a revelação de uma presença, Franciele é cantora. Da sua voz poderosa ecoou uma versão roqueira de “Maria Maria”, é como se durante todos esses anos a canção- hino dos mais que únicos Milton Nascimento e Fernando Brant, tivesse esperado por uma voz feminina que fizesse seus versos sangram seus múltiplos sentidos. Nem só de uma bela voz se faz uma cantora ou cantor, é preciso emoção, sentir o que se canta, longe do cantar mecânico bons cantores e cantoras cantam a alma, sentem cada verso das canções, são atores na interpretação de um roteiro no qual a emoção é o autor.
Depois de sua apresentação no The Voice Kids Franciele Fernanda foi vítima de ataques racistas na internet, fez o que deve fazer qualquer pessoa que se sinta ameaçado ou vítima de preconceito, deu queixa na polícia. A intolerância religiosa, xenofobia, racismo e outras formas de preconceito estão lentamente ocupando espaços no Brasil, as redes sociais e outras plataformas virtuais tornam-se redutos para expressão criminosa de covardes. As penas para esses crimes virtuais são brandas, o crime no Brasil compensa e compensa porque com louvadas exceções os legisladores são criminosos eleitos ou por seus pares ou por irresponsáveis sem compromisso algum com o país.
O Estado brasileiro é uma fábrica de criminosos, seja pela ausência de políticas educacionais e culturais reais ou amparo a infância e adolescência ou ainda pela proteção aos bandidos classe média que dos seus apartamentos usam computadores para cometer crimes.
Franciele não pode se deixar abater por racistas ou xenófobos, deve continuar seu caminho, fazer valer sua paixão musical, saber que ainda há um longo percurso até a utopia que ela deseja. Além do canto, não deve nunca e em hipóteses alguma negligenciar os estudos, se dedicar ao máximo mesmo, porque a única maneira de pessoas como nós, que temos na pele essa marca e a estranha mania de ter fé na vida chegarmos a algum lugar é pelo estudo. Não terão compaixão de nós, é preciso escrever cada linha da história de nossas vidas com o suor do nosso rosto, temperar esse suor com o estudo.
Franciele no palco me lembrou outra cantora, Cássia Eller, presença marcante, voz visceral e uma incrível capacidade de recriar canções, assim espero que Franciele continue. Quem destoar do criminoso padrão social imposto pela TV, pela moda, pela religião e tantos outros seguimentos, deve se preparar pelo que vêm pela frente, os iguais guiados pelo crime da elitização social não perdoam quando as marias deixam as cozinhas e se tornam não patroas, mas senhoras de suas vidas, donas de seus destinos, quando sabem-se lindas e profundamente lindas.



  

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys