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“Do universo rabisco o mundo”

Raphael Rocha é autor de “Do universo rabisco o mundo”, livro de poemas editado em 2011 pela editora Quártica Premium.O livro nos apresenta uma poética concisa que mantém um acentuado diálogo com a poesia concreta e também com a filosofia, a começar pelo título:  “Do universo rabisco o mundo”. Talvez se pergunte o leitor qual o universo do autor e que mundo ele rabisca; são muitos mundos que saem do universo poético de Raphael Rocha, de inquietações cotidianas até indagações filosóficas.
Em “Além do que se vê”, Raphael Rocha escreveu:

“O que me espera na curva?
  Cabe a mim quebrar e viver
                          Ir ver
                          Sentir o que há
                          Será? Não sei”

Se a vida é risco, a poesia é de enfrentamento, se o mistério vive depois da curva, Raphael Rocha em sua poesia se permite o risco de viver esse mistério, mas não escapa da dúvida, mas é também a dúvida ponte para todo conhecimento. Em “Ressonâncias” podemos ler: “nos caminhos deste branco vazio cheio de tudo”, mas uma vez o poeta recorre a filosofia para expressar sua inquietação como o estado de quem inserido no mundo não aceita apenas existir, mas também viver plenamente todas utopias possíveis, ou em sua própria voz lírica: “marcando a eternidade de cada conquista / deixando vestígio indeléveis/ a cada ausência”.
Enquanto  autor do sua própria paixão poética Raphael Rocha deixa claro a luta para que sua voz não tenha como interlocutora apenas a si mesma, enfrentar a indiferença e um mundo repleto de tantas outras vozes carentes de interlocutores é também a busca poética presente em “Do universo rabisco o mundo”:

                                                         “Minha voz
                                                          Morre na tromba d’água
                                                          Meu pranto sussurra viola o silêncio
                                                          Meu canto
                                                          Ausente de escalas naturais
                                                          Piso em meu solo”
A morte da voz na “tromba d’água” é apenas simbólico é não concreto, mesmo que o “pranto sussurra viola o silêncio”, “ausente de escalas naturais/ piso meu solo”. Se o caminho é complexo e cheio de barreiras ao fim o poeta pisa seu solo, caminha, faz também seu solo lírico e marca sua presença, sua voz vence a “tromba d’água”.
“Estrelas” é um poema que nos leva reencontrar o concretismo e o que de melhor essa escola ou anti-escola literária nos legou. “Quando morremos viramos estrela no céu/ se minha estrela no céu não guardar/ vou cair/ estrela cadente/ e brilhar estrela-do-mar”. Otimismo poético, certeza de que o caminho não foi em vão, há céus e céus e se com paixão nos permitirmos à causa que desejamos, no caso  poética, certamente herdaremos ou conquistaremos o nosso céu mar, nosso céu sentimento de viver mundo e suas paixões.
Raphael Rocha também é metalinguagem e é em “No escuro” que isso fica evidente: “Eu me escrevi no escuro/ não porque quis/ se errado me escrevi/ tão só o fiz”... “Reneguei-me a sintaxe e algumas orações/ não por desejo, apenas o fiz” ... “Eu me escrevi no escuro/ num papel branco de bom tamanho/muitas letras engarrafei/palavras descosturaram-se”... “Não sou um bom texto/ No escuro me escrevi...Um garrancho”.
Nestes versos Raphael Rocha em metalinguagem fala do processo criativo e sem muita complacência, faz também uma analise da sua escrita. Fazer autocrítica é bom, mas a última palavra de quem escreve é dada pelo leitor. Quem escreve escreve para ser lido, para se mostrar para outro.
A metalinguagem é importante por revelar ao leitor a visão do autor sobre sua própria obra e em alguns aspectos os caminhos que percorre para realizar  seu trabalho, Raphael Rocha nos convida assim a entrar em seu universo criativo e saber como nesse universo sua sintaxe própria o ajuda a compor seu manifesto poético.
Em “Onipreausência” Raphael Rocha escreveu “ Ausente/ é aquele / que nunca está em si”. Estar em si é o primeiro passo para estar em outros, quem não convive bem consigo mesmo não vai conviver bem com pessoa alguma.   Raphael Rocha fecha o livro nos convidando mais uma vez a reflexão filosófica, nos toca no delicada da nossa frágil condição, fala do abismo entre nós e o nosso próximo. A capa de “Do universo rabisco o mundo” é uma enorme impressão digital, parece nos alertar de que embora sejamos únicos nada nos impede de estarmos em tantos outros e para isso a poesia existe, mesmo que ela sempre nos leve de volta para o nosso universo, já não será mais tão somente  nosso, terá as marcas de tantos outros universos e mundos.
Ps- Notei algumas coincidências entre mim e o autor de  “Do universo rabisco o mundo”. Raphael Rocha nasceu em um 14 de março, eu também, só que em 1974, Raphael viveu na cidade de Caetanópolis, eu vive anos em Santo Amaro-BA, terra de Caetano Veloso, Raphael toca em uma banda de Rock, eu já toquei em uma banda de Rock, a Flor Marginal, Raphael se formou em Jornalismo, eu em Letra...O universo é grande, a arte relativa.
Contatos com autor: raphaelrocha@gmail.com











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