Pular para o conteúdo principal

“Eu, Kalunga”

“Eu, Kalunga” é um romance da escritora Custódia Wolney publicado originalmente em 2005. O romance nos apresenta traços e aspectos do povo Kalunga. Os Kalungas é uma comunidade quilombola situada ao norte do estado de Goiás. Através das reminiscências da personagem Berta, somos levados por um Brasil desconhecido, misterioso, místico e, sobretudo, um Brasil teimoso que insiste em se erguer e ser autor da própria história, um Brasil bonito e comovente, um Brasil de mulheres fortes como Berta. “Eu, Kalunga” é um romance histórico que busca reconstruir e nos contar historicamente aspectos antropológicos de brasileiros que construíram com as próprias mãos o lugar que lhes cabe neste país tão desigual e excludente.
Berta, menina negra, é sequestrada por um índio, violentada, engravida, foge, casa com outro homem mesmo não tendo por este homem afeto, apaixona-se por outro homem e vive platonicamente essa paixão, é espancada pelo marido. Berta é forte, vai vivendo, revivendo, a cada queda se ergue. Berta é a Maria, Maria de Milton Nascimento:
“Quem traz na pele essa marca
possui a estranha mania
de ter fé na vida”

Durante todo romance Custódia Wolney através de Berta vai nos guiando pelo fascinante sentir e viver mundo dos Kalungas, os dramas se sucessendem, mas a escrita de Custódia Wolney não é dramática ou mórbida, é leve e suave e através dessa suavidade e leveza que sua heroína se coloca também no mundo como mulher, aliás, Berta, lembrando Simone de Beauvoir, vai se tornar mulher, mas vai se tornar mulher através das suas próprias vivência, ela é uma heroína platônica, tudo nela chega primeiro pelas sensações, pela possibilidade de levar ao mundo prático o que ela sente na alma.
“Eu, Kalunga” também nos releva a tragédia do latifúndio, violência pela disputa de terra, justiça seletiva, xenofobia e claro o racismo, mostra também a tragédia da violência contra os índios, o estado de desespero que tomava conta de quem vivia pelo interior do Brasil em condições de abandono e castração.
A narrativa que começa com Berta revivendo as histórias do seu povo contadas pelo seu bisavô e griô Nhô Tobias termina de maneira surpreendente, ela mesma também se torna uma griô e transmite às novas gerações tudo que sabe sobre a história e cultura do seu povo. A menina sequestrada por um índio ao fim é feliz, encontra o amor onde menos se pode imaginar, os tempos são outros, outros desafios, vida que segue. Berta que sofreu, amou e viveu por isso mesmo tem história para contar, lições a ensinar.
“Eu, Kalunga” é uma bela narrativa, uma ponte para nossas tradições, nossa cultura, encontro com tantos brasis desconhecidos pelo seu próprio povo. Quanto mais o povo deste país se entender como nação teremos mais chances de sermos felizes, enquanto nos olharmos com estranhamento social, religioso e cultural estaremos presos ao pântano do litígio da felicidade.









Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…