Pular para o conteúdo principal

“Coming In From The Cold”

O disco  despedida de Bob Marley “Uprising” foi lançado em 1980 pouco antes da sua morte, doente e sabendo-se terminal Bob em seu último disco foi inspirado e inspirador. A música que abre “Uprising” é “Coming In From The Cold”, ou seja, “ Vindo do frio” é um hino à vida, doce e bela vida, a alegria de estarmos vivos. Ao dizer que nesta vida mesmo que estejamos vindo do frio Bob questiona: “It's you I'm talking to now/ Why do you look so sad and forsaken?” em tradução livre “ É com você que estou falando agora/ porque está tão triste e entediado?” e arremata “When one door is closed/ Don't you know another is open?”, “ Quando uma porta se fecha você sabe que outra se abre?”. O desespero de oportunidades perdidas, desemprego, dos estragos financeiros, dos punhais cravados nas costas por “amigos” outrora frequentadores das nossas almas e vidas, da falta de crença em si e na tristeza de se sentir só pode levar-nos a loucura.
A primeira vez que ouvi “Uprising” foi em uma casa no Buraco da Gia, Rua do Bairro do 2 de julho em Santo Amaro-BA, rua que morei por menos de dois anos, mas que me marcou profundamente. Quando “Uprising” começou a girar na vitrola e os primeiros acordes de “Coming In From The Cold” soaram, eu que tinha entre treze ou catorze de idade, tive uma espécie de experiência mítica, a música era tão forte que não era preciso entender inglês para saber que ali havia diálogo entre o garoto sertanejo acostumado a ouvi Paulo Sérgio, Amado Batista e Sérgio Reis cantores que falavam do mundo lúdico dos meus pais transferido para mim através de canções adocicadas e melodias tristes (minhas raízes profundas) e o jovem cantor jamaicano morto aos trinta e seis anos.
Muitos anos mais tarde tive a alegria de saber que não estava errado, Bob Marley dizia coisas importantes, era profundo, simples e sincero. “Coming In From The Cold” é uma canção exata, sua letra simples e cortante somada à música poderosa tem o poder de nos levar para outra dimensão.
Em outro momento de “Coming In From The Cold” Bob Marley canta: “Would you let the system/ Make you kill your brother, man?”, Você deixará o sistema/ te fazer matar seu irmão?”. Nesses versos interrogatórios uma denúncia e uma razão: nosso maior inimigo é o Estado, não é a violência dos bandidos que nos mata, não é a doença que nos mata, quem nos mata é o Estado. Mata-nos ao ter no seu estômago os vermes da corrupção, ao permitir a morte intelectual de milhões de jovens, ao manter leis que alimentam o crime, ao alimentar um poder judiciário forte para os fracos e fraco para os poderosos, ao jogar na vala dos cemitérios ladrões de galinha e condenar a prisão domiciliar os bandidos mais perigosos deste país. E pior de tudo: consegue fazer o povo se odiar, se matar.
“Coming In From The Cold” é uma canção hino, tantos anos depois de gravada é como se todas manhãs ela fosse lançada, basta olharmos pela janela para sabermos o quanto estamos eternamente vindo do frio, mas nem por isso devemos negar a vida, nossa bela e única vida.




  

Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…