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“Estou com fome”

“Estou com fome”, foi assim que A. D. S, homem, "morador" de um lugar abandonado aqui de Brasília se apresentou. Perguntei de onde era, respondeu: “do norte, do nordeste, sou como dizem aqui paraíba” . Ao saber sua idade fiquei chocado, com apenas trinta anos parecia ter o dobro. Pai de dois filhos e com mulher, deixou o nordeste, caminhou a esmo, pegando carona, pedindo comida e não sabe como chegou a Brasília, segundo ele, “a cidade dos homens”. Olhei minha carteira e dei o que tinha, não era muito, mas cada centavo estava carregado de emoção e solidariedade, era como se aquele homem fosse carne da minha carne, sangue do meu sangue, tínhamos raízes comuns, eu tive um pouco mais de oportunidades e ele foi esmagado por aquilo que durante anos tentou também me esmagar.
A miséria em Brasília é nordestina, saindo de Brasília e pegando a estrada em direção a Bahia, há uma imensa favela de barracos de plástico, o sotaque, fome e miséria daquele lugar é nordestino, homens, mulheres com suas criancinhas que deixaram o nordeste e buscam aqui na capital federal, se não a felicidade, ao menos um dia sem fome.
A crise hídrica fez com que o governo decretasse racionamento de água em Brasília, li em muitos lugares pessoas culpando os nordestinos pela crise, segundo esses xenófobos, o aumento da população no Distrito Federal e o pulso fraco do governo em impedir novas construções dessa “gente ignorante” é o que fez as barragens do DF caírem a níveis preocupantes.
A classe média de Brasília não difere da classe média dos outros estados, inclusive no próprio nordeste em que a classe média do litoral olha com desprezo os nordestinos do sertão, do nordeste profundo. É uma sucessão de negativas das raízes. Na classe média de Brasília, com devidas exceções, pouco importa a orientação religiosa, política ou cultural há um visível desprezo pelo Brasil profundo.
Curioso é observar a classe média que se diz de esquerda desprezando pessoas pobres, se mostrando arrogante, soberba e até mesmo racista, além de xenófoba, do outro lado a classe média de direita ou algo parecido que se porta de igual verminosidade. São iguais, são podres; neste meio todo, claro há pessoas que são sensíveis e sinceras aos dramas sociais, estas estão em todos os lugares até mesmo na classe média de direita ou esquerda, a exceção é um alívio.
Todos os dias encontro pessoas de todas as idades e cores procurando no lixo comida, no caminho para o Plano Piloto, no canteiro da pista vive um homem em uma pequena barraca de plástico, um dia desses passei por ele, chovia forte, estava sentado na grama, todo molhado, senti vontade de levá-lo para casa, senti todas as angústias possíveis.
É cômodo apontar o dedo para o Congresso Nacional e chamar todos os políticos de bandidos, como se eles tivessem surgidos do nada. Não, os políticos ruins (sim, porque há bons políticos) não são os únicos responsáveis por todas as misérias deste país, eu você e todos nós também contribuímos de alguma maneira para tudo isso, e se contribuímos podemos também ajudar a melhorar.
Brasília é uma cidade encantadora para quem saber enxergar o que de encanto há nela, penso que deveria ser realmente a cidade do Brasil que queremos, mas é preciso como em todo Brasil sermos radicais com as nódoas, se queremos algo de bom, agora neste exato momento, isso começa nos enxergando como somos. É preciso nos olharmos no espelho sem complacência.
Mudar para Brasília me fez enxergar o Brasil por dentro, aqui vivem pessoas de todos aos estados, aqui o Brasil se encontra no melhor e no seu pior. E é aceitando nossa incivilidade que apontaremos o caminho do agora para civilidade. O atual momento do país pede uma ruptura radical com tudo que temos de ruim: imprensa ruim ,música ruim, políticos ruins, serviço público ruim, cidadãos ruins, amizades ruins, enfim, tudo que nos nega no que de melhor temos, se formos tolerantes com a mediocridade morremos todos, seremos todos afogados na lama social de um país maravilhoso entregue a um bando de bandidos.

    

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