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Meus encontros com Lula

O ex-presidente Lula vive seu ocaso, e não vive esse ocaso com grandeza, ele é incapaz de assumir um único erro, mesmo que seja ter estacionado em lugar indevido, mas Lula não é sozinho nesta incapacidade de assumir erros, não é só na política que se nega erros com verborragia contagiante, no nosso dia dia, nós mesmos também temos nossa incapacitante coragem de assumir erros, claro que se comparado aos erros de um ex-presidente ou senador nossos erros são pequenos, mas lembre-se todo câncer começar de maneira microscopia.
Em 1998 quando Lula perdeu pela terceira vez uma eleição presidencial não se deprimiu, foi andar pelo país e no dia 16 de setembro de 1999 foi a Santo Amaro da Purificação na Bahia, era aniversário de D. Canô, depois que deixou a casa da aniversariante Lula foi até a pequenina sede do PT, a sede funcionava em uma garagem alugada perto do Bar de Tote, eu estava lá, Lula chegou, um conhecido meu chamado Joaquim, a época presidente do PT municipal, me apresentou a Lula, ele apertou minha mão e disse: “ tudo bem companheiro?”. Não demorou foi cercado por muitas pessoas, saudado e abraçado.  
A visita à sede do PT em Santo Amaro foi rápida, logo depois uma comitiva encaminhou-se para o Assentamento São Domingos, esse assentamento fica as margens da BR 420 que liga Santo Amaro a BR 324 em direção a Salvador.
Fui até o assentamento no carro de Paulo Machado, militante de muitos anos do PT, lá no assentamento Lula subiu em um barranco e sem caixa de som começou a discursar para os trabalhadores rurais, na estrada as pessoas que passavam nos carros gritavam: Lula, Lula! Foi um momento emocionante, neste dia estava também Waldir Pires, Jaques Wagner e Rui Costa, o primeiro ex-governador da Bahia, os dois últimos seriam em breve governadores. Tudo que acabei de escrever foi documentado pela TV Bandeirantes e fotos do meu amigo Alcione.
Meu segundo encontro com Lula aconteceu em 2008, desta vez não teve aperto de mão, o vi de longe no palco do Centro de Convenções da Bahia em Salvador, era o dia 29, um terça feira. Eu era coordenador regional de educação do governo da Bahia, o evento daquela tarde me dizia muito, era entrega de certificados de conclusão do programa de alfabetização do governo do Estado, o TOPA (Todos pela Educação). Lula estava radiante, com camisa branca amarrotada, contou histórias da sua família, sua relação com o pai e irmãs. Foi uma tarde esperançosa, nunca esquecerei.
A última vez que vi Lula foi bem rapidamente, eu estava ao lado de minha mãe, era o dia 25 de setembro de 2006, ele foi novamente a Santo Amaro, desta vez para inaugurar o IF, Instituto Federal de Ciências e de Tecnologia, não era mais o mesmo, parecia cansado e já havia indícios de desvirtues em seu governo, depois daquela tarde nunca mais o vi de perto.
O Lula de 2017 colhe o que plantou, o desejo de eternizar seu partido no poder o levou a aceitar acordos com os mais notáveis criminosos deste país, agora ele senta no banco dos réus para acerta contas com uma justiça parcial e politizada, foi e será condenado, seus antigos aliados filhos da “burguesada” e pais e mães da justiça brasileira não serão condenados como Lula, porque não será condenado apenas a pagar juridicamente por erros comentidos, sua maior condenação será destruir sua biografia para que durante muitos anos outro homem ou mulher vindos das entranhas do Brasil não ousem sonhar ir tão longe. Curioso que na própria esquerda brasileira Lula é um estranho, a esquerda sempre foi elitista, na sua alta cúpula é muito difícil encontramos sobrenomes como “ Silva”, “ Santos”, “Jesus”, assim como na direita impera na esquerda também nomes alemães, italianos,espanhóis e ingleses.
Lula poderia neste momento assumir, ao menos, que uma vez na vida mijou no poste da esquina, isso humanizaria o animal político que ele é, isso lhe daria alguma grandeza neste fim melancólico da sua carreira política.


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